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Quanto riso, oh, quanta alegria…

28 de fevereiro de 2012

…mais de mil palhaços na estação. O trocadilho patético se dá em função da antes caótica, agora degradante, situação do transporte público na cidade de São Paulo – particularmente, quando falamos dos trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Colocamos à prova nossa civilidade ao utilizar o serviço. Atrasos, quebras, mal funcionamento, descaso e o valor abusivo da viagem são apenas alguns dos combustíveis de uma explosão anunciada – pensava eu, em meus resquícios de sonhos anarquistas.

Essas poderiam ser as piores partes do problema, mas não são. Os cidadãos, nós, poderíamos simplesmente não mais aceitar essa situação. As justificativas apresentadas, como “estamos aguardando a movimentação do trem à frente”, “estamos aguardando liberação de partida”, ou até mesmo o absurdo “os trens estão circulando com maiores intervalos e velocidade reduzida” são aceitas com extrema passividade pelos usuários. Sempre dizem que os paulistanos são mais estressados e preocupados do que os cariocas, mas ao ver a reação dos litorâneos ao abuso da SuperVia, derrubo mais um mito imbecil entre os dois povos.

Não incentivo agressão, depredação ou coisa parecida. Mas é ridículo aguardar por mais de 15, 20 minutos um trem que chega sempre lotado com outras 1000 pessoas e, ao entrar, essas mesmas pessoas começarem a rir. Sim, rir. Riem de quê? Da desgraça? Da humilhação? De como são imbecis por aceitar tudo passivamente? A CPTM ampliou diversas estações, para que caibam mais pessoas aguardando seus trens. Querem ampliar a linha em mais 8km, para carregar mais pessoas diariamente. O que os usuários pensam de tudo isso? “Que bom!”.

Semana passada, com cerca de 500 pessoas aguardando um trem a mais de 10 minutos, surgiu um vazio. É praxe da CPTM: a cada 15, 20 minutos, um trem vazio parte da estação Pinheiros, até a estação Jurubatuba (do meio do caminho até outra metade, para quem não mora em São Paulo e está imaginando o motivo de eu explicar tudo isso). É como se mandassem um recado: “Vejam bem… benevolentes como somos com sua condição de idiotas, dispomos de um trem vazio para treinarem as práticas mais primitivas do ser humano”. E isso acontece, com frequência. Nesse dia, 30 pessoas desafiaram as leis da Física e tentaram atravessar  uma porta de 2x2m,  ao mesmo tempo. Uma senhora foi empurrada, derrubada e quebrou a perna. Virou motivo de riso e chacota do restante do gado. Claro, afinal de contas, ela não deve ter “a manha” do restante dos animais.

Em suma, é oferecido ao povo o que o povo merece. Não pelo fato de votar mal e não cobrar seus direitos – longe disso. O cidadão sente falta de ser mal tratado. De quê iriam reclamar? O que contariam para os amigos do trabalho, ao chegarem atrasados, suados e amassados diariamente para 10h de serviço? Como justificariam o xingo nos filhos, a agressão na esposa, o esporro no porteiro do prédio? É bacana sofrer. Mais legal ainda, bancar o sofredor.

Boa viagem.

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A ignorância é uma benção

24 de fevereiro de 2012

Não chega a ser impressionante, mas é interessante: as pessoas têm vergonha, medo e preconceito de tudo que é considerado ordinário. Comum, normal, careta, popular, pop ou povão. Average and regular, diriam os mais desanimados e afrescalhados. A ideia de pertencer e compartilhar de gostos e preferências da maioria – e, principalmente, assumir essa condição –, aparentemente causa a impressão de estar abandonando um grupo seleto de indivíduos especiais, para se unir à multidão e se tornar, apenas, mais um.

É legal ser ordinário. Essa padronização do cidadão médio é esteriotipado como uma das principais ferramentas do “sistema”para tornar a todos cada vez mais ignorantes. Mas, como já diria Joey Ramone: “a ignorância é uma benção”. Afinal, é ela que puxa a tomada da loucura do dia a dia. Por que deveríamos sentir vergonha de dizer, ou assumir, que ao se jogar no sofá após um cansativo dia de trabalho, é gostoso, sim, ligar a TV e assistir o programa mais superficial possível? Abstrair pelo entretenimento, leitura, culturalmente, é uma válvula de escape que funciona muito bem.

Qual o objetivo de passar horas sob um sol escaldante, em um ambiente extremamente insalubre, alterando por meio de radicais choques térmicos a própria garganta? Pegar uma praia é relaxante, socialmente bem visto, mas não acrescenta nada em sua vida, a não ser um momento de pura abstração e diversão. Enquanto faz isso, pessoas morrem de fome em todo o mundo, políticos continuam a enriquecer de forma ilícita, entre outras mazelas naturais e – acreditem – inevitáveis e naturais. Você iria embora por saber ou se lembrar de tudo isso? Talvez se preocupasse com um futuro problema de pele, em função da exposição excessiva ao sol, mas pelas crianças famintas na Etiópia?

Reparem em como criticamos as pessoas que, aparentemente, não se interessam por qualidade. Por informação. Por política, arte, literatura. O problema seria mesmo com essas pessoas ou conosco? Pobre Michel Teló, Neymar, Paulo Coelho. São catalisadores de um ranço incompreensível por uma parte da sociedade. Nem entrarei em detalhes de qual parte é essa, formada majoritariamente por jovens, pois não conseguiria exprimir em um só texto o quão replicantes são. Mas o que resta, ao final, é a certeza de que somos todos hipócritas.

“Como pode alguém gostar/não gostar disso?”.
Get a life, get a life.

Que saudades!

23 de fevereiro de 2012

O usuário de camisinha em todas as relações sexuais. O jovem que nunca tragou um cigarro. O contribuinte que reclama dos buracos nas ruas e estradas, mas não paga IPVA, acha um absurdo a Lei Seca e os limites de velocidade. O bixo da USP que bate no peito que não pagará para estudar, após 3 anos de cursinho a R$ 900 mensais. O republicano brasileiro que não admite a diarista que pede aumento. O moralista que odeia o carnaval, mas ama o feriado em que o país deixa de produzir. O moderninho que teme revelar ser gay. Os juniores, plenos e seniores. As garotas que criticam Panicats, mas usam a webcam para incitar masturbação alheia. Fãs de vlogs. O corno que fala mal de suas ex. O pagão que tem medo da morte. O pai de família que suprime informações do IR e critica Brasília. Os amantes e odiadores de reality shows. Os cidadãos extremamente conscientes do Facebook.

Avisem lá que o Acnoide voltou!


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