Quanto riso, oh, quanta alegria…

…mais de mil palhaços na estação. O trocadilho patético se dá em função da antes caótica, agora degradante, situação do transporte público na cidade de São Paulo – particularmente, quando falamos dos trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Colocamos à prova nossa civilidade ao utilizar o serviço. Atrasos, quebras, mal funcionamento, descaso e o valor abusivo da viagem são apenas alguns dos combustíveis de uma explosão anunciada – pensava eu, em meus resquícios de sonhos anarquistas.

Essas poderiam ser as piores partes do problema, mas não são. Os cidadãos, nós, poderíamos simplesmente não mais aceitar essa situação. As justificativas apresentadas, como “estamos aguardando a movimentação do trem à frente”, “estamos aguardando liberação de partida”, ou até mesmo o absurdo “os trens estão circulando com maiores intervalos e velocidade reduzida” são aceitas com extrema passividade pelos usuários. Sempre dizem que os paulistanos são mais estressados e preocupados do que os cariocas, mas ao ver a reação dos litorâneos ao abuso da SuperVia, derrubo mais um mito imbecil entre os dois povos.

Não incentivo agressão, depredação ou coisa parecida. Mas é ridículo aguardar por mais de 15, 20 minutos um trem que chega sempre lotado com outras 1000 pessoas e, ao entrar, essas mesmas pessoas começarem a rir. Sim, rir. Riem de quê? Da desgraça? Da humilhação? De como são imbecis por aceitar tudo passivamente? A CPTM ampliou diversas estações, para que caibam mais pessoas aguardando seus trens. Querem ampliar a linha em mais 8km, para carregar mais pessoas diariamente. O que os usuários pensam de tudo isso? “Que bom!”.

Semana passada, com cerca de 500 pessoas aguardando um trem a mais de 10 minutos, surgiu um vazio. É praxe da CPTM: a cada 15, 20 minutos, um trem vazio parte da estação Pinheiros, até a estação Jurubatuba (do meio do caminho até outra metade, para quem não mora em São Paulo e está imaginando o motivo de eu explicar tudo isso). É como se mandassem um recado: “Vejam bem… benevolentes como somos com sua condição de idiotas, dispomos de um trem vazio para treinarem as práticas mais primitivas do ser humano”. E isso acontece, com frequência. Nesse dia, 30 pessoas desafiaram as leis da Física e tentaram atravessar  uma porta de 2x2m,  ao mesmo tempo. Uma senhora foi empurrada, derrubada e quebrou a perna. Virou motivo de riso e chacota do restante do gado. Claro, afinal de contas, ela não deve ter “a manha” do restante dos animais.

Em suma, é oferecido ao povo o que o povo merece. Não pelo fato de votar mal e não cobrar seus direitos – longe disso. O cidadão sente falta de ser mal tratado. De quê iriam reclamar? O que contariam para os amigos do trabalho, ao chegarem atrasados, suados e amassados diariamente para 10h de serviço? Como justificariam o xingo nos filhos, a agressão na esposa, o esporro no porteiro do prédio? É bacana sofrer. Mais legal ainda, bancar o sofredor.

Boa viagem.

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2 Respostas to “Quanto riso, oh, quanta alegria…”

  1. glauberweasel Says:

    “Em suma, é oferecido ao povo o que o povo merece.”

    Real, cara. Bem real.
    Ando de trem e sei como é isso. O ser humano volta as suas origens, é simples assim. Não existe idoso, não existe criança e muito menos gestante.
    Tudo isso só por causa de um banco vazio ou um lugar mais confortável (ou menos ruim) no trem.

  2. cassiolito Says:

    Cara, seu texto tá DuKa, mas o último parágrafo está épico! Posso estampar em uma camisa?

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