A arte de (saber) envelhecer ainda novo

É natural -e digno de prêmios: eu sou rabugento. Não é de hoje. Lembro que a primeira vez que alguém me disse, de forma sincera, que eu tinha espírito e humor de velho, foi uma mãe de santo, aos 9 anos. Inventar predicados como “mas você é inteligente e crítico, por isso te chamam de chato” é uma das coisas que mais ouço. Não sou inteligente, muito menos tão crítico assim: apenas não consigo calar a boca quando ouço, vejo ou leio algo imbecil ser disseminado como o vírus da gripe.

Isso começou, é claro, na casa dos meus pais. Dos 14 anos em diante, me acostumei a gostar mais de ficar calado do que de ter uma conversa amável com qualquer um deles. E olha que minha família fala, e bem. Só costumava abrir a boca para reclamar, ser irônico ou, simplesmente, apagar uma fogueira com gasolina. A única excessão à regra era no colégio, onde tentava parecer o mais sociável possível – entre os homens, é claro. As garotas costumavam pertencer a um território dialético demais para quem não gosta de conversar.

O problema é que pensava e ainda penso, demais. Enquanto uma roda de pessoas dialoga sobre um assunto qualquer, minha primeira atitude é observar o que e como conversam: estão falando sobre algo importante? Polêmico? Amenidades? Estão sérios ou animados? …estão falando sobre mim? Sim, todo cara um pouco mais fechado é adepto do egocentrismo. Esse é o perfil ideal de um serial killer ou suicida. Percebam que, nos dois casos, sua intenção é ser notado, discutido, analisado, julgado e, algumas vezes, admirado e martirizado. As vítimas são, apenas, números. Mas, por piedade da minha própria lápide, não vou me enquadrar em nenhum desses perfis – ao menos, não por pouco dinheiro.

Lá pelos 17 anos, cansado de ser turrão, comecei a ser palhaço. E isso enchia o saco. O cara engraçado, sempre com uma tirada ou piada pronta sobre qualquer coisa, sofre do estigma de ser uma pessoa alegre, “pra cima” e… inteligente. Ou seja, em diversas oportunidades, você apenas quer uma sniper para sair atirando em pedestres, mas insistem que você conte uma piada ou aquela mentira engraçada que um dia inventou para sair de uma situação constrangedora e acabou fazendo sucesso entre seus amigos. É um abadá para eunucos em uma sociedade carnavalesca – todo mundo curte o cara engraçadão, mas ninguém dá para ele.

Apoiado pelo término de um relacionamento – artifício preferido e recomendado por 9 entre 10 pessoas sem personalidade própria, como no meu caso, naquela época – voltei a ser chato. Era reconfortante e quase lúdico, já que todas as pessoas que me procuravam só para ouvir uma brincadeira começaram a se afastar, gradativamente, ao ouvir algum esporro ou “vá procurar o Irineu“. De lá para cá, 8 anos de muitas e novas amizades duradouras, entre um ou outro solavanco de rancor e agressão gratuita, é claro.

O motivo da quase auto-necropsia é que isso, agora, voltou a me trazer problemas e, principalmente, me incomodar – não, eu não gosto de pessoas chatas e rabugentas. A pobre Marcia, a dona lá de casa, sofre. Reclamo de tudo: da bagunça dela pela casa, dos demorados banhos, da insistente mania de falar baixo quando estou longe e me forçar a gritar “O quê?”, de comentar coisas batendo a mão na mesa/volante/sofá, de apelar no Marvel VS Capcom 3. Eu mesmo me irrito de reclamar tanto e ser tão chato. Coitada. Deve ser complicado morar comigo.

Mas me recuso a voltar a ser, só, engraçadão. Não funciona durante muito tempo. E não tem a menor graça, afinal.
Talvez seja como diz um dos meus artistas preferidos, Ben (Weasel) Foster: nos tranformamos no que odiamos.

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