Winning, La Petit Mort

Pare e pense: há quanto tempo você teve a sensação de estar fazendo algo realmente incrível? Qualquer coisa que tenha realizado e atiçado aquela vontade de sair contando para todos ou, simplesmente, fazer questão de não se esquecer nunca mais. Caso tenha parado por mais de 30 segundos para se decidir, tenha certeza que você anda vivendo da forma errada – se não, ao menos, inadequada.

Aquilo que ouvimos desde a criação de nossos primeiros ideais, “a vida é curta”, é uma dos mais notáveis alertas que recebemos e ignoramos. Desprendemo-nos de prazeres que são, na mesma medida, banais e essenciais, para nos ater a conceitos coerentes ao que os outros esperam de nós – exatamente o inverso de outra patética, porém válida frase: “o Homem nasceu para ser feliz”.

Winning (vencendo) é um conceito que o ator Charlie Sheen criou para designar o que é aproveitar, ao máximo, todos os momentos da vida, não importando as consequências ou os meios necessários para alcançá-los. Não é preciso dizer, mas digo: não fossem o pragmatismo moral e as condições sociais que nos são impostas, faríamos o mesmo. Agora, onde estivéssemos, pelo tempo e na medida que bem entendessemos ser agradável a nós mesmos.

Charlie Sheen é rico, muito rico. Possui status, representatividade perante seus fãs e a mídia em geral. É poderoso, por assim dizer. Se dá ao luxo de poder entreter a si e seus convidados de nababescas festas com muito álcool, drogas e sexo, sem passar pelo crivo da aprovação de ninguém, além da própria. Evidentemente é um caso isolado e que talvez não sirva como o melhor exemplo possível para o que descorro a seguir, mas serve, ao menos, de contraponto.

Atenção: daqui em diante, o texto fica chato e bem mais pessoal.

Acordo, de segunda à sexta-feira, às 5h30. Levanto, vou ao banheiro, lavo o rosto e me troco. Tomo um bom banho antes de dormir, para não perder preciosos 15 minutos de sono matinal. Depois, se ainda não estiver colado no sofá, preparo algo para não sair de casa com o estômago vazio – o que costuma ser um copo de achocolatado, por ser mais prático. Fumo um cigarro se ainda me restarem 5 minutos e parto. São 6 horas.

Caminho cerca de 200 metros em 4 minutos, contados no relógio. Chego ao ponto de ônibus e, dependendo daquele que passar menos cheio, decido meu caminho, mesmo que em 95% das vezes a opção seja pegar um trem da CPTM, nas estações Santo Amaro ou Socorro. Do ponto de descida até o trem, são mais 4 minutos. Na plataforma de embarque, entre 5 e 10, dependendo das condições desumanas do transporte público paulistano. Normalmente de pé, passo 20 minutos sobre os trilhos, até Pinheiros. De lá, a moderna e mal planejada Linha Amarela do Metrô me leva em 15 minutos até a centenária Estação da Luz, antes luxuosa, hoje um refúgio para prostitutas viciadas em crack, mendigos e traficantes.

Mais uma vez, caminho: 4 minutos até outro ponto de ônibus – ando rápido demais para minhas necessidades, mas gosto de poder me deliciar por ter 2, 3 minutinhos a mais para qualquer outra coisa que não envolva responsabilidades. Do ônibus até a avenida mais próxima do trabalho, são 15 minutos. Tempo que uso para ler meus e-mails e fuçar um pouco o Facebook. Desço, caminho por 8 minutos até um boteco ao lado da empresa. Tomo um café preto, sem muito açúcar, enquanto saboreio dois cigarros, um após o outro.

Trabalha, trabalha, enrola, enrola, enrola, trabalha, almoça, trabalha, trabalha, trabalha, enrola, fuma um cigarro, trabalha.

Preciso chegar em casa a qualquer custo. Esse é meu Winning: chegar em casa hoje, mais rápido do que ontem, utilizando o mesmo itinerário: caminhada até o ponto de ônibus / pegar o ônibus / voltar para a Luz / seguir novamente até Pinheiros / embarcar em outro trem da CPTM/ chegar à estação Socorro / caminhar até outro ônibus / caminhar / chegar em casa. Um prazer absurdamente ridículo. Lá se foram 15 horas do meu dia.

As 9 horas restantes são como um pós-orgamo, bem diferentes daqueles que Charlie Sheen se permite ter. Estou cansado, preguiçoso demais para qualquer atividade que exija o mínimo de atenção e já pensando no dia seguinte, o mesmo dia de sempre. É hora do banho bem tomado, de preparar o jantar, comer, conversar com a mulher, fingir que a televisão é minha amiga, ir para a cama e dormir. Foram mais 4 horas, até que as últimas 5 se passem e meu celular desperte-me com Danny Says, dos Ramones.

Cada um tem o Winning que lhe convém, lhe cabe, merece ou, apenas, lhe foi concedido.
O meu, bem diferente dos de Charlie Sheen, é parecido com o que chamam a sensação pós-orgasmo, na França: La Petit Mort (a pequena morte).

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