A “orkutização” de uma geração mais triste

Quando era novo, 20 anos atrás, não conseguia entender muito bem o que levava pessoas a guerrear. Também passava longe da minha compreensão – ainda abastecida por Thundercats, Changeman e Comandos em Ação – qual era o sentido de se passar horas e horas, durante meses, acompanhando uma novela que todos conheciam o final. Mas já percebia uma coisa: as pessoas gostam de tudo aquilo que façam com que elas sejam parte de algo. Um exército, fã clube, partido político ou seita religiosa.

Na era digital, onde crianças nascem conectadas à internet, a imbecilização da democracia e do livre arbítrio é o maior problema. Por cabos, uma geração inteira cresce acompanhando polêmicas vazias, gerando conteúdo desprezível e colaborando para a orkutização dos próprios umbigos. Um celular, onde a principal premissa é conectar duas ou mais pessoas à distância por meio de sinais sonoros – sem a necessidade de fios, veja só! -, vira uma das principais portas de acesso para um mundo frio, insosso e fantasioso. Nem mesmo uma foto bem tirada e acrescida de um efeito digital melhora essa paisagem sem graça.

Não que me preocupe com essa adolescência desprovida de lembranças que, um dia, valerão algo para se contar. Mas é impressionante como ninguém da atual turma percebe ou se preocupa com isso. Pareço, sim, um velho dos anos 90 falando sobre as maravilhas dos anos 50 e 60, mas há como fugir desse personagem? Crianças continuam ralando os joelhos ao brincar de bola na rua? Sabem o que é dançar de rosto colado, morrendo de vergonha e curtindo a sensação de ser pateticamente feliz? O quão chato é perder um dia inteiro sentado, em frente a uma máquina, da mesma maneira que passarão o restante de suas vidas em escritórios, por R$ 12 a hora?

O problema é que, ao não sair de casa e experimentar os perigos necessários do mundo, os adolescentes não interagem, não se conhecem, não “se bicam”. Logo, buscam fazer parte de um universo virtual, abstrato, cheio de regras até mesmo para se fazer rir. Vestem a camisa de grandes conglomerados tecnológicos e executivos bilionários, que, como todo burocrata deve ser, querem exatamente isso: uma massa espessa, potencialmente participativa e facilmente maleável. Controlável, diria eu.

Você, que sabe ler, questionar e interagir de forma sociável, nunca entrará nessa caçamba do século 21. Logo, jamais poderá debater sobre a orkutização de nada, porque isso não lhe interessa. Você deve ter algo bem mais importante para se preocupar. Viver, por exemplo. Simples assim.

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