Os 10 centímetros da vitória corinthiana

Podia ser menos sofrido. Mas aí, não seria um jogo do Corinthians. Depois de 174 minutos, o zero saiu do placar, pelo lado alvinegro que mais fez por merecer. Sim, a equipe do novo Fiel Torcedor, Tite, foi mais aguerrida e eficiente, somando à premissa de “intensidade”, entrega total e consciência tática.

O jogo começou com a cara do Vasco. Os cariocas se aproveitavam das infantis faltas cometidas por Jorge Henrique, Danilo e Emerson, sempre próximas da área, para forçar as jogadas aéreas com Alecssandro e Rômulo. Juninho Pernambucano fazia a festa: batia falta da direita, da esquerda, da intermediária. Todas interceptadas pela zaga menos vazada da Libertadores 2012, com Chicão e Leandro Castán.

Truncada, gelada e excessivamente comedida, a partida caminhava para mais um empate, outro zero a zero, para os pênaltis. Na única boa chance da primeira etapa, Paulinho saltou livre, no meio da área e, de cabeça, exigiu os reflexos do bom Fernando Prass. No intervalo, a torcida corinthiana era um misto de apreensão, reclamação e esperança, tanto no Pacaembu, quanto em bares e sofás.

Segundo tempo. Um novo jogo. O Vasco, novamente, melhor. Retendo bola no ataque, mas sendo inibida pela ótima postura defensiva do adversário. Do lado do Corinthians, a principal mudança ocorreu aos 11 minutos. Após reclamar – educadamente, é verdade, mas com muita veemência – sobre falta que não existiu em Paulinho, na entrada da área, Tite foi expulso. Na cabeça do corinthiano, flashes de 91, 96, 99, 2000, 2006…

Para o teatro dos horrores se tornar realidade, faltava o elemento principal: o culpado. Em todas as eliminações do Corinthians na Libertadores, ao menos nos últimos 21 anos, sempre um jogador foi a bola da vez: Ronaldo (goleiro), Zé Elias, Marcelinho (duas vezes), Coelho. Ontem, um capitão teve a chance de figurar nessa sombria galeria. Após rebatida do goleiro vascaíno, a bola sobrou, livre, para Alessandro, próximo do meio campo. O jogador dominou, olhou, tentou o lançamento… e Diego Souza interceptou. Correu, livre, em direção à meta. Era o fim.

Atrás dele, Alessandro e Paulinho apostavam uma corrida já perdida. Na frente, o ex-palmeirense teve tempo de tocar duas vezes na bola. Teve tempo de pensar, de calcular o que faria. No gol corinthiano, Cássio, ex-terceiro goleiro da equipe, recém titular. Dez centímetros mais alto que seu antecessor. No toque colocado, no canto esquerdo do goleiro destro, Diego Souza jogou um balde de água fria na torcida cruz-maltina. O camisa 24 do Timão, com seus 10 centímetros a mais de envergadura, tocou com a ponta da unha na bola. No chão, rápido, preciso, com calma. O fato de não ter saído desesperado no pé do atacante – lance lógico até para quem enfrenta um lance desse no vídeo game – ajudou a evitar o drible. Salvou a equipe do Corinthians. No lance seguinte, cabeçada do Vasco no travessão. Um beliscão após um tiro no peito.

O troco, de Emerson, também foi parar na trave. Alex não conseguia bater um escanteio sequer no local certo. Nem o próprio Sheik. Nem ninguém. Chicão arriscava bolas altas, da intermediária, resultando em nada. O Vasco também era sólido, mesmo sem o “craque” Dedé. O corinthiano não tinha mais aquelas unhas que Cássio usara, minutos antes, para evitar o pânico generalizado. Faltava uma bola. Uma só. Tite, no alambrado do Pacaembu, tentava se concentrar na partida, mesmo com torcedores em seu ouvido, sugerindo alterações. Vieram duas: Willian no lugar de Jorge Henrique, Liédson no lugar de Emerson. E o gol? Viria de quem?

Já se passavam 41 minutos de sofrimento, em um segundo tempo amargo, doloroso, sofrível, cardíaco. Corinthiano. Alex acertou uma bola no jogo. Paulinho, a segunda. Novamente, sozinho no meio da área, com uma linda cabeçada, aproveitou o escanteio vindo da esquerda e marcou o gol da redenção. Loucura no Pacaembu. Tite, em meio a torcedores e diretores, vibrava como se tivesse ele mesmo feito o gol. Em casa, este que vos escreve gritava, com medo, pois um único gol do Vasco tiraria, instântaneamente, a classificação do Corinthians.

Lance seguinte, escanteio para o Vasco. Cássio, até então herói e intransponível, falha. A bola passa rente à sua mão e encontra a cabeça de Rômulo. Livre, vindo do fundo da área, com tempo para escolher o canto, a altura, o estilo. A bola passa a menos de 10 centímetros da trave. Do gol. Da eliminação.

Um jogo de 180 minutos, decidido por 10 centímetros.

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