Glédis, Coelhinho e o bailinho

Dentre todas as coisas que podem apavorar um homem que está prestes a se casar – tirando o fato do “casar” em si, evidentemente – a obrigação de dançar é a que mais se destaca. Veja bem: você terá, sim, que desembolsar uma boa grana para fazer com que todos bebam e comam à vontade, às suas custas, e ainda saiam da festa falando mal de algo. Ou seja, você não precisa, necessariamente, se desfazer de todo seu orgulho – basta estar ali, naquela condição, que a coisa já será invariavelmente constrangedora. Tudo isso, porém, não se compara à dança.

Não falo em relação àquelas músicas que tocam às 2 da manhã, com todos os convidados já devidamente alimentados e alcoolizados, o que faz com que qualquer passo do Rouge seja algo simpático aos olhos mais conservadores. Digo a valsa, a maldição da dança lenta, junto da noiva. Alguns casais ainda impõem a condição de se fazer o mesmo com os pais, mas meus testículos não suportariam tamanha pressão e humilhação pública. O som, em 90% das vezes, é alguma daquelas canções melosas de telenovelas da Globo, onde o casal do bem faz amor. Nunca há uma música para o casal que só utiliza o fodeco como mostra de afeto: no mundo idealizado da paixão, o que rola é fazer amor.

Existem pares por aí que se arriscam, até mesmo, a contratar profissionais da dança para novos movimentos e coreografias. Um giro, um rodopio, um duplo twist-carpado. O grande chamariz desse tipo de performance é o mesmo daquele da Formula 1 – esperar por uma tragédia para poder dizer: eu presenciei aquilo, ao vivo. Na minha posição de noivo, optei por uma música lenta, bem lenta. Assim, teria de me mover pouco, quase nada e, se bobear, poderia até puxar um cochilo nos ombros dela. Minha escolha foi devidamente rechaçada com o argumento de que “essa música é triste demais! Estamos celebrando uma união, como podemos dançar ao som de uma pessoa com o coração despedaçado?”. Ora bolas, não dá na mesma? Enfim, terei de me movimentar mais do que o planejado.

Será, ainda assim, algo básico: dois pra cá, dois pra lá. Moleza. Conheço a música há tempos, a letra, quando vem o refrão. Dá para controlar tudo, imagino. O complicado, para mim, é se a srta. Noiva decidir fazer o que fez sábado, no “ensaio oficial” (leia-se única vez que decidimos fazer isso, em casa, depois de algumas doses). Nunca imaginei que em uma valsa, o homem tivesse que se mexer como uma batedeira de bolos. Além do mais, nunca imaginei ser eu a pessoa a reclamar de “você pisou no meu pé”. No frigir dos ovos, será tudo uma grande zona, comigo errando o lado para onde deveria “conduzir” a noiva e, se bobear, esquecendo até quando a música termina.

Nunca soube dançar. Nunca quis saber, também, é verdade. Lembro que no meio dos anos 90, era comum o pessoal do meu condomínio organizar alguns bailinhos, nos salões de festas dos prédios. A realidade dos fatos era que eles só queriam poder ficar um pouco longe dos pais, nem que fosse por 2, 3 horas, beber um pouco e fumar escondido. Aquela palhaçada de garotos de um lado, garotas do outro, vassoura, luz baixa, Bon Jovi. Rolava essa pataquada toda. Eu, naturalmente, fingia ficar de canto, encostado em algum lugar, com a perna dobrada, apoiada na parede  – James Jean style. Na hora que alguma garota me escolhia para dançar, lançava aquele famoso “eu?”,e o olhar blasé, seguido de um “beleza”. Mas, lembrem-se: eu não sabia dançar, e nem queria saber.

Dançávamos como víamos as pessoas dançar músicas lentas, na televisão: como se fosse uma valsa. O cara segurava a mão da garota, mais ou menos na altura dos ombros, afastada do corpo. A outra mão ia na cintura (lembrei de um axé que fala sobre isso, que horror), estrategicamente entre a lombar e o meio das costas – nem tão amigo, nem tão tarado. Era simples. Entre uma dancinha e outra, a troca de vassoura, a troca de par. Era até bacana. Até alguma garota que absolutamente ninguém queria dançar te escolher. A Glédis.

Juro pelos Ramones que até hoje não sei o nome real da menina. Virou “Glédis” como poderia ter virado qualquer outra coisa, naquela época em que bullying era cuspir na cara de alguém, não inventar apelido. O sentido real de Glédis eu nunca entendi, mas soava como um “nossa, essa menina tem cara de Glédis”. Um dia, Glédis me tirou para dançar. Queria muito ir embora naquela hora, mas ela sempre foi a última a ser pega, em todos os bailinhos. Arrisquei e fui. Em cinco, talvez seis minutos, Glédis ficou calada. Eu agradecia a Joey: além de ser a garota mais zoada dos bailinhos, ela ainda nem sequer quis falar comigo. Jogo ganho. Até o fim da festa – por volta das 22h, veja só.

Coelhinho“. Ainda me chamam assim por lá, mesmo eu já tendo  cabelos brancos até na barba – pois é, uns 3 fios, mas tenho. Foi assim que me chamou, para emendar: “você fica com alguém?”. Gelei. Tinha uns 4, 5 amigos ao redor. Jamais poderíamos ser vistos juntos, quanto mais num papo daqueles. Respondi que sim, dei boa noite e fui embora. Eu tinha 12 anos, mas sabia mentir como uma mulher de 25. Fiquei sabendo, depois, que ela ficou lá, chorando, imagino eu por quais motivos. Depois daquele dia, evitei todo e qualquer tipo de bailinho. Salvas exceções às festas onde já tocava rock, onde ninguém precisava ter contato físico com ninguém, a não ser algumas ombradas.

Glédis, esteja onde estiver, chame-se como se chamar, saiba que você foi muito importante para mim.
Você me traumatizou a dançar.

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7 Respostas to “Glédis, Coelhinho e o bailinho”

  1. Rangel Melkunas Says:

    Eu já tive uma Glédis… quando tinha uns 3 ou 4 anos… na escolinha… em plena festa junina. Só queria morrer naquela hora. Na mais.

    Bicho, essa sua Glédis não é a… a… Ger… GERD…. aaaaaaaaaaaaaa???

  2. Douglas Says:

    Velho quem era a GLÉDIS????? Me lembro do apelido, mas não me recordo de quem seja…. Sera que foi tão foda assim que meu sub-consciente numa tentativa desesperada de me proteger bloqueou essa lembrança?????

  3. Tha Says:

    Hahahahaha!! Os bailinhos dos Américas!!

  4. Lucia Magalhães. Says:

    Adorei a estória da Gledis. Mas quem é ela? Eu conhecí?
    Esqueça o trauma, a Valsa não é tão difícil assim. É realmente só dois pra lá e dois pra cá. Mas não me convide para dançá-la tá? Não me lembro de ter dançado um dia.

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