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Qual a extensão do seu corpo?

28 de setembro de 2012

Filosoficamente falando, é comum, mais do que possa parecer, que a sociedade evite qualquer mudança drástica em seu modus operandi. Seja em costumes, assimilação de novas culturas e ideias ou, até mesmo, práticas triviais do dia a dia, o ser humano não gosta de novidades. É sempre muito complicado para o limitado cérebro do Homo Sapiens perceber que nada é imutável. Desde que Henry Ford desenvolveu o método de produção em massa de veículos motorizados, a sociedade aprendeu que: homem que é homem precisa ter carro, e mulheres precisam de homens que amam carros. Básico, simples e direto.

Para que a conquista seja plena, não há espaço para o Bilhete Único. Aquela lacuna de 4 horas e 40 minutos em que o Metrô e sistema de ônibus adormecem, por exemplo, não dão tempo ao amor. Quem sabe um fodeco na festinha das “7 às 7” na casa de alguém, uma balada até o fim da madrugada, umas comprinhas no Brás… mas, sem carro, ela não vai. Não vai querer chegar na festinha, na balada ou no Brás nos arcaicos táxis, ônibus e Metrôs de São Paulo. E aquele glamour de ser levada até seu destino? E aquela lógica de que o homem deve estar conduzindo Miss Dasy? E o senso comum?

Meu amigo, se você não tem carro, você não tem nada a oferecer a curto, médio ou longo prazo. Se você não tiver carro pelo simples motivo de não querer ter um carro, ah… extraterrestre que és, terá de arcar com as consequências de uma vida de pré-julgamentos e preconceitos, que vão desde a sua capacidade econômica, passando pelos suas competências – ou a falta delas – e, não raramente, sua sexualidade. Homem busca a garota na casa dela. Homem abre a porta para ela entrar e sair do carro. Homem paga a conta. Homem é galanteador, educado, servil e gentil. Homem tem que ser assim. – Mim, Tarzan. You, Jane.

Para muitos possuidores de pênis entre as pernas, carro é a extensão do próprio corpo. Sem ele, não há como ir ao trabalho. Voltar então, como? O que fazer para se conquistar uma garota? Depois de conseguir, o que deve ser feito, além de oferecer carona? E aquele bate papo animado com os colegas, vai ser sobre o quê – além da fechada que levou, das multas, do trânsito, da Lei Seca que burla regularmente, do valor absurdo da revisão, IPVA, inspeção? O que fazer nos dias de fim de semana, se não levar o carro para lavar, regular o som, trocar a lanterna e aspirar os bancos? A vida do homem sem carro inexiste. Automaticamente, sem aquela virilidade sendo acelerada a cada esquina, a vida sentimental da mulher também se esvai. “Onde estará aquela buzinada que eu sempre ouvia ao passar por aqui?”.

Eu não consigo enxergar as vantagens em se ter um carro. Se for desses 0km, então, não posso nem imaginar. Mas é um problema só meu, um covarde pé rapado, sem coragem para dirigir, que depende da boa vontade e bom coração dos amigos para se locomover pela cidade em um banco acolchoado, ouvindo o rádio e – às vezes – fumando um cigarro. Um dia, quem sabe, eu faça parte dessa maioria que tem em 4 rodas muito menos do que vários possuem em 4 patas. Mas, por enquanto, prefiro esperar até as 4h40 e viver um pouco mais em função de mim mesmo, não de cilindradas, estigmas ou placas final Y ou X.

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Rumo ao bege

24 de setembro de 2012

Há uma coisa que serve de pesadelo para qualquer redator, jornalista, blogueiro, escritor ou coisa que o valha: não te sobre o que escrever. É lógico que  “nada” não existe para quem vive de texto. Se for por profissão, cria-se a partir da tela em branco do computador, da ventania do Metrô, da insônia, da falta de entusiasmo ou, simplesmente, da falta de assunto. Existem vantagens em não ter sobre o que escrever, já que qualquer rascunho vira nota, e todo parágrafo vira dissertação. Estou em uma fase parecida, mas com suas peculiaridades.

O blog é puramente um hobby, mas meu trabalho ainda é escrever. Seja fazendo um freela para alguma revista ou site, remunerado ou não (sim, ainda sou cretino o bastante para aceitar algumas responsabilidades gratuitamente), escrevendo alguma música para a banda nova – que possivelmente nunca será tocada ou gravada), acabo me deparando com a mesma situação: estou escrevendo para quê? Para quem? Alguém se importa? Confesso que se a resposta para essa última questão fosse um simples “não”, minha atitude não mudaria. Hora ou outra, acabaria escrevendo, mais uma vez. Escrevo para mim em 80% dos casos, e os outros 20%, escrevo para aquela pessoa que se arrisca em perder 5, 6 minutos do dia com o que acho/entendo/concordo ou discordo sobre qualquer coisa.

Atualmente, dádivas da minha carreira, não tenho sobre o que escrever. Na empresa onde estou, a criação de textos corresponde a 5, talvez 10% das minhas obrigações. De resto, copio textos de clientes sobre referências em catálogos e os libero para que a parte gráfica complemente. Quando o trabalho volta, já devidamente diagramado, apenas reviso o que foi feito, confiro se os textos foram aplicados corretamente, se as imagens estão locadas da forma adequada e voilà!, teje pronto. É bossal, digno ao trabalho de macacos em uma esteira fordiana, mas não ligo. Não muito, ao menos.

Eu poderia me esforçar mais e partir para algo mais desafiador. Uma função menos passiva, mais compensadora idelogicamente. Mas isso levaria à mudanças que, talvez, hoje não me interessem mais. Virar noites em uma redação; perder – rotineiramente – finais de semana, feriados, festas, happy hours, viagens; assumir a possibilidade de, quem sabe, chefiar uma área; um curso de reciclagem, um novo aprendizado, uma especialização, novos horizontes… É tudo tão bacana para alguém de 29 anos, que me vejo aos 92: trabalhando para alcançar algum prazer naquilo que só me rende dinheiro e algum status, mas sendo obrigado a encontrá-los em tudo que faço. Ou seja, meu amigo, não mudaria nada.

Penso que o que faço, hoje ou amanhã, tende a ser muito parecido com o que planejei, alguns anos atrás: servir para algo, servir bem, para servir sempre. Esse “algo” já me basta, mesmo não rendendo tanto financeiramente quanto alguém possa imaginar o real valor que isso possui, agrega ou diferencia. Em suma, está tudo bem, caminhando para aquele bege, insosso e já predeterminado.

E, no fim das contas, nem ligo.
O bege ainda é aceito por muitos, por aí.

Desinteligência em Termópilas – uma história absolutamente fictícia

4 de setembro de 2012

Leónidas vive, há quase 2 anos, com sua esposa, Gorgó, em um novo empreendimento de uma grande construtora. Fruto de muitas batalhas, banhadas a sangue, contratos, empréstimos e 300 prestações, o empreendimento era como o Olimpo, mas nas Termópilas: áreas de lazer, piscina, spa, espaço gourmet e outras revoluções afrescalhadas, impostas pelos colonizadores vindos de terras distantes. Desde então, a vida do casal seguia um ritmo de poesia e lirismo, com muito amor, carinho, paz e tranquilidade. Leônidas ainda foi contemplado com seu próprio totem de celebração ao Deus Carne, em sua varanda, premiada com uma bela vista de áreas verdes, grandes avenidas e povoados menos favorecidos.

Eis que, em pouco tempo, surge uma família que viera para por fim a tudo aquilo. Os Nicholeus, bárbaros persas recém-chegados das terras do norte e oriente, mantém hábitos rudimentares de convivência em sociedade, como o salto ornamental sobre a cabeça dos vizinhos e os 100 metros rasos em áreas domiciliares – talvez, em treinamento para as Olimpíadas. Tudo isso incomodava muito a Leónidas e Gorgó, que por diversas vezes, estenderam a diplomacia aos novos habitantes, expondo suas ideias e propondo soluções para a relação mais cordial possível. Por outro lado, os bárbaros não compreendiam o idioma utilizado pelo casal, e apenas respondiam com novos treinamentos militares, em preparação para uma guerra que não se datava, mas que se mostrava próxima.

Após diversas tentativas de diálogo, as famílias foram levadas a um regente superior, dotado de poderes de apaziguação, a fim de evitar o pior entre ambas etnias. Foi acordado, então, que os treinamentos iriam cessar ou, ao menos, diminuir consideravelmente de frequência. A trégua, porém, durou menos do que um verão, e os desentendimentos já não eram mais resolvidos com a tão louvável diplomacia entre os povos, mas sim, com ações punitivas, impostas pelo Clero local, formado por pessoas tão despreparadas, quanto desinteressadas. No placar, 1×0 para Leónidas e Gorgó, mas no acumulado, perdiam pela diferença de um exército.

Há cerca de 30 dias, o casal havia desistido de buscar soluções com a sociedade, decidindo, de momento, se abster de maiores indisposições, já que as tentativas de aconselhamento e uso do bom-senso foram ignoradas por todos. A resignação tinha um gosto amargo, de derrota sem luta, algo não admissível a um povo guerreiro. Então, fez-se a escuridão no celeiro da paz: os bárbaros orquestraram um ataque sincronizado, durante horas, sobre as cabeças e domínios de Leónidas e Gorgó. O espartano, então, decidiu emitir um sinal de alerta e advertência aos intrusos da paz daquele ambiente, por meio de toques sonoros em suas estruturas em comum. O sinal foi rechaçado com veemência – era declarada a guerra.

Gorgó, reticente quanto às atitudes possivelmente radicais de Leónidas, tentou, em vão, impedir o guerreiro de partir para a batalha. Tomado pela ira dos deuses e surdo aos clamores de sua esposa, o espartano subiu até o território de seus adversários, para uma última tentativa de diálogo. A comandante dos bárbaros persas, Anaclézia, atendeu à Leónidas de forma rude, ignorando em todos os sentidos os pedidos de paz definitiva. Guiada por forças obscuras, a comandante lançou o pior e mais enervante ataque ao guerreiro: a indiferença. Assim, Anaclézia bateu a porta de sua fortaleza na face de Leónidas, após impropérios dignos de um povo bárbaro, oriundo das mais baixas estepes.

Toda a história de seu povo, agora, passava pela mente de Leónidas: as duras batalhas para a conquista daquelas terras, as aflições, os mau agouros. O guerreiro, então, cegado pela vingança, proclamou por quatro vezes o grito de guerra de seu povo “- THIS IS SPARTA!”. A porta do território persa começava a vir abaixo, quando em um momento de clareza, o espartano ouviu ao suplício de Gorgó, e cessou o ataque. Os persas conclamaram as autoridades superiores do Estado maior, com suas carruagens de luzes vermelhas e azuis, que trataram de apartar a desinteligência e acalmar os ânimos.

Leónidas foi punido, pelo Clero, com três cotas territoriais.
O casal, agora, busca novas terras para habitar e consolidar, em paz, sua família.

Os espartanos podem perder batalhas, mas sua bravura jamais será esquecida.


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