Rumo ao bege

Há uma coisa que serve de pesadelo para qualquer redator, jornalista, blogueiro, escritor ou coisa que o valha: não te sobre o que escrever. É lógico que  “nada” não existe para quem vive de texto. Se for por profissão, cria-se a partir da tela em branco do computador, da ventania do Metrô, da insônia, da falta de entusiasmo ou, simplesmente, da falta de assunto. Existem vantagens em não ter sobre o que escrever, já que qualquer rascunho vira nota, e todo parágrafo vira dissertação. Estou em uma fase parecida, mas com suas peculiaridades.

O blog é puramente um hobby, mas meu trabalho ainda é escrever. Seja fazendo um freela para alguma revista ou site, remunerado ou não (sim, ainda sou cretino o bastante para aceitar algumas responsabilidades gratuitamente), escrevendo alguma música para a banda nova – que possivelmente nunca será tocada ou gravada), acabo me deparando com a mesma situação: estou escrevendo para quê? Para quem? Alguém se importa? Confesso que se a resposta para essa última questão fosse um simples “não”, minha atitude não mudaria. Hora ou outra, acabaria escrevendo, mais uma vez. Escrevo para mim em 80% dos casos, e os outros 20%, escrevo para aquela pessoa que se arrisca em perder 5, 6 minutos do dia com o que acho/entendo/concordo ou discordo sobre qualquer coisa.

Atualmente, dádivas da minha carreira, não tenho sobre o que escrever. Na empresa onde estou, a criação de textos corresponde a 5, talvez 10% das minhas obrigações. De resto, copio textos de clientes sobre referências em catálogos e os libero para que a parte gráfica complemente. Quando o trabalho volta, já devidamente diagramado, apenas reviso o que foi feito, confiro se os textos foram aplicados corretamente, se as imagens estão locadas da forma adequada e voilà!, teje pronto. É bossal, digno ao trabalho de macacos em uma esteira fordiana, mas não ligo. Não muito, ao menos.

Eu poderia me esforçar mais e partir para algo mais desafiador. Uma função menos passiva, mais compensadora idelogicamente. Mas isso levaria à mudanças que, talvez, hoje não me interessem mais. Virar noites em uma redação; perder – rotineiramente – finais de semana, feriados, festas, happy hours, viagens; assumir a possibilidade de, quem sabe, chefiar uma área; um curso de reciclagem, um novo aprendizado, uma especialização, novos horizontes… É tudo tão bacana para alguém de 29 anos, que me vejo aos 92: trabalhando para alcançar algum prazer naquilo que só me rende dinheiro e algum status, mas sendo obrigado a encontrá-los em tudo que faço. Ou seja, meu amigo, não mudaria nada.

Penso que o que faço, hoje ou amanhã, tende a ser muito parecido com o que planejei, alguns anos atrás: servir para algo, servir bem, para servir sempre. Esse “algo” já me basta, mesmo não rendendo tanto financeiramente quanto alguém possa imaginar o real valor que isso possui, agrega ou diferencia. Em suma, está tudo bem, caminhando para aquele bege, insosso e já predeterminado.

E, no fim das contas, nem ligo.
O bege ainda é aceito por muitos, por aí.

Anúncios

Tags: , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: