Qual a extensão do seu corpo?

Filosoficamente falando, é comum, mais do que possa parecer, que a sociedade evite qualquer mudança drástica em seu modus operandi. Seja em costumes, assimilação de novas culturas e ideias ou, até mesmo, práticas triviais do dia a dia, o ser humano não gosta de novidades. É sempre muito complicado para o limitado cérebro do Homo Sapiens perceber que nada é imutável. Desde que Henry Ford desenvolveu o método de produção em massa de veículos motorizados, a sociedade aprendeu que: homem que é homem precisa ter carro, e mulheres precisam de homens que amam carros. Básico, simples e direto.

Para que a conquista seja plena, não há espaço para o Bilhete Único. Aquela lacuna de 4 horas e 40 minutos em que o Metrô e sistema de ônibus adormecem, por exemplo, não dão tempo ao amor. Quem sabe um fodeco na festinha das “7 às 7” na casa de alguém, uma balada até o fim da madrugada, umas comprinhas no Brás… mas, sem carro, ela não vai. Não vai querer chegar na festinha, na balada ou no Brás nos arcaicos táxis, ônibus e Metrôs de São Paulo. E aquele glamour de ser levada até seu destino? E aquela lógica de que o homem deve estar conduzindo Miss Dasy? E o senso comum?

Meu amigo, se você não tem carro, você não tem nada a oferecer a curto, médio ou longo prazo. Se você não tiver carro pelo simples motivo de não querer ter um carro, ah… extraterrestre que és, terá de arcar com as consequências de uma vida de pré-julgamentos e preconceitos, que vão desde a sua capacidade econômica, passando pelos suas competências – ou a falta delas – e, não raramente, sua sexualidade. Homem busca a garota na casa dela. Homem abre a porta para ela entrar e sair do carro. Homem paga a conta. Homem é galanteador, educado, servil e gentil. Homem tem que ser assim. – Mim, Tarzan. You, Jane.

Para muitos possuidores de pênis entre as pernas, carro é a extensão do próprio corpo. Sem ele, não há como ir ao trabalho. Voltar então, como? O que fazer para se conquistar uma garota? Depois de conseguir, o que deve ser feito, além de oferecer carona? E aquele bate papo animado com os colegas, vai ser sobre o quê – além da fechada que levou, das multas, do trânsito, da Lei Seca que burla regularmente, do valor absurdo da revisão, IPVA, inspeção? O que fazer nos dias de fim de semana, se não levar o carro para lavar, regular o som, trocar a lanterna e aspirar os bancos? A vida do homem sem carro inexiste. Automaticamente, sem aquela virilidade sendo acelerada a cada esquina, a vida sentimental da mulher também se esvai. “Onde estará aquela buzinada que eu sempre ouvia ao passar por aqui?”.

Eu não consigo enxergar as vantagens em se ter um carro. Se for desses 0km, então, não posso nem imaginar. Mas é um problema só meu, um covarde pé rapado, sem coragem para dirigir, que depende da boa vontade e bom coração dos amigos para se locomover pela cidade em um banco acolchoado, ouvindo o rádio e – às vezes – fumando um cigarro. Um dia, quem sabe, eu faça parte dessa maioria que tem em 4 rodas muito menos do que vários possuem em 4 patas. Mas, por enquanto, prefiro esperar até as 4h40 e viver um pouco mais em função de mim mesmo, não de cilindradas, estigmas ou placas final Y ou X.

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2 Respostas to “Qual a extensão do seu corpo?”

  1. glauberweasel Says:

    Cara, tu é igualzinho a mim!
    Não estou só!

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