O que vi da vida

O quadro do Fantástico “O que vi da vida” deveria ser aberto a populares. Sim, pessoas comuns, daquelas “sem nome”, pelas quais passamos diariamente, sem oferecer um “bom dia”, pelo simples fato de não conhecermos. Não nos interessa conhecer as histórias ditas interessantes de atores e artistas globais. Para isso, existe o site Ego. E também o Vídeo Show, o Estrelas, e outros tantos programas – até mesmo de outras emissoras.

Imagine que interessante seria o quadro do programa dominical se escolhessem um cobrador de ônibus. Quantos assuntos e experiências mais importantes e reveladoras uma pessoa dessa não teria para passar? A briga com o motorista, o motoboy derrubado no trânsito, a fechada levada pelo veículo diplomático, o playboy chapado passando por debaixo da catraca. A dificuldade em suportar os mais de 30ºC no interior do ônibus, parado no mesmo lugar, valendo-se apenas de uma garrafinha de água (quando se tem), uma toalha no vidro que fica em suas costas, a brecha da janela. O dia em que os governantes pegaram o ônibus, para posar para fotos.

A prostituta também renderia boas histórias. O senador homofóbico que solicita serviços pela porta dos fundos, o casal em fim de relacionamento que a chama para “apimentar” a relação, as boas ações em tempos natalinos, o cliente que apenas queria bater um papo. Ou o traficante, aquele de porta de balada, que abastece pobres, ricos, milionários e mendigos. O ex-jogador de futebol do time do interior, que nunca conseguiu nada além de uma temporada na equipe da capital, onde foi roubado e perdeu o restante do dinheiro por causa das decisões de senadores, do traficante, da prostituta e do cobrador do ônibus. Seria muito edificante, com certeza.

Se fosse comigo, por exemplo, teria boas histórias para contar. Daquelas que levam ao choro, graças a Joey, teria poucas. Mas acredito que poderia me transformar em viral, ou – quem sabe, personagem de propaganda da Nextel. Poucas e boas sobre bebedeiras que levaram à merda, namoradas que chegaram ao caos, ex-chefes que foram à falência e à loucura. Shows que não renderam nada além de prejuízos, ressacas e mais prejuízo, textos mal escritos que levaram elogios, textos bem escritos que simplesmente passaram despercebidos.

Mas, na verdade, o que vi da vida foi uma correria desenfreada atrás de dinheiro, de antigas amizades, de falsos amores e, principalmente, tranquilidade. O problema é que isso só chega após a busca de dinheiro, bons amigos, amores de verão e intranquilidade. O que vi da vida é algo que todos vêem: quase nada de interessante, mas muita coisa digna de análise. Mas isso não dá Ibope. Só gera aquela pequena e tacanha de sensação de “Ufa, ainda bem que não foi comigo”.

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