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Vende-se sofá sulamericano

22 de fevereiro de 2013

O evento que causou a morte de um garoto de 14 anos, dias atrás, durante a partida entre San José X Corinthians, em Oruro (BOL), é destaque em todos os programas esportivos e policiais. Alimentada por sangue e pólvora, a mídia cumpre seu papel. Noticia fatos, opina sobre boatos, incita discussões. O maior problema, a morte do garoto, é a ponta de um iceberg. Este, capaz de naufragar navios sem sinalizadores. Ao clube e seus torcedores sobraram as ofensas e acusações. Assassinos e coniventes foram as mais suaves. Para o caso em si, acidente parece a mais coerente.

Para quem já foi a estádios de futebol, o pensamento é simples: existem, sim, as pessoas que procuram confusão e a agressão gratuita – se isso resultar em morte, é apenas uma consequência. E há, evidentemente, aqueles que vão para se divertir e aproveitar o que há de mais importante entre as coisas menos importantes – o futebol. No que as imagens e relatos demonstram, o sinalizador lançado da torcida corinthiana, na horizontal, em direção aos bolivianos, parece mais sem rumo do que realmente com rota específica.

Como disse anteriormente, quem já foi a estádios, sabe como a coisa funciona. No caso dos jogos do Corinthians, quando um gol é marcado (assim como no início do primeiro e segundo tempo), grandes bandeiras são erguidas sobre a cabeça dos torcedores. São os “bandeirões”. O Corinthians, normalmente, conta com três deles por partida: o maior, da Gaviões da Fiel, e dois menores – mas igualmente ostentosos: da Camisa 12 e Coringão Chopp. Ainda há bandeirões da Estopim e Pavilhão 9, mas esses, normalmente, são renegados a jogos de menor importância – não me pergunte o motivo, nem me cobre mais conhecimento sobre esse assunto. Com base em tudo isso, explico melhor, logo abaixo.

Tragédia em 3 atos:

1. Testemunhas brasileiras, torcedores e jornalistas, relatam que em momento algum a polícia local fez a revista em quem adentrava o estádio. Pessoas com malas de viagem, fechadas, eram empurradas para dentro. Poderiam carregar sinalizadores. Bombas. Armas de fogo. Facas. Bazucas. Cocaína. Maconha. Anthrax.

2. Na última quarta-feira, o gol de Guerrero aconteceu aos 6 minutos de partida. Ou seja, o único bandeirão levado para a Bolívia, da Gaviões da Fiel, já havia sido erguido e baixado, em função do início da partida. Veio o gol, ou seja, novamente hora do bandeirão. Porém, como em um roteiro pré-definido, após o grande poliester ser baixado, é hora dos sinalizadores. Não os que foram levados a Oruro, mas sim, outros mais inofensivos, que apenas geram luz. Uma verdadeira confusão, eu sei. Eles também. Mas não imaginavam o que viria a acontecer.

3. Alguém que acabara de acionar o dispositivo PROIBIDO nos estádios do Brasil, mas legal na Bolívia (mesmo não tendo sido comprado lá), teve milésimos de segundo para decidir: aponto isso para baixo, podendo atingir quem está aqui / aponto para cima, correndo risco de colocar o enorme bandeirão em chamas, sobre dezenas de pessoas / aponto para qualquer outro lado, que não seja para o alto ou para baixo. Sim, a decisão foi errada. Impensada, provavelmente. Trágica, sem dúvidas.

Acredito que, mesmo que o torcedor responsável pelo disparo seja uma pessoa violenta, talvez até mesmo fora da lei, em momento algum teve a intenção ou consciência do risco que assumia ao disparar o sinalizador para o lado. Era outro país, uma torcida inócua aos corinthianos, sem qualquer rivalidade. Ou seja, não haveria propósito a uma provocação ou tentativa de agressão como tentam comprovar boa parte da mídia, sociedade e autoridades bolivianas. Uma dúzia de corinthianos foram presos, e aguardam decisão da justiça em uma delegacia de Oruro sobre seus destinos. O clube já comunicou, de forma oficial, que não irá interferir na libertação dos mesmos. Também disse que não houve financiamento de torcedores para assistir à partida no exterior.

A Conmebol, órgão máximo do futebol sulamericano, decidiu por penalizar o clube, Corinthians, com a não participação de sua torcida em todas as partidas seguintes da competição. Já foram vendidos mais de 100 mil ingressos para os três jogos da primeira fase, no estádio do Pacaembu. Um prejuízo de R$ 15 milhões. Uma penalização que poderia parar por aí, mas que será contestada tanto pelo Corinthians – que entrará com recurso sobre a decisão, quanto da opinião pública, que argumentará que isso não é o suficiente. Na verdade, nada seria o bastante. Nada nunca será para algo deste tipo.

Os caciques da bola na América do Sul, por décadas omissos em casos semelhantes e mais brandos, resolveram a questão de forma simples, prática, e sem efeito real: pegaram a mulher com o Ricardão no sofá da sala, e para solucionar o caso, venderam o sofá.

Screen shot 2013-02-22 at 11.38.11 AM

Que tenham boas noites de sono.

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