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Eu parto, tu partes, ele parte

9 de dezembro de 2013

No hall de entrada do hospital, as mãos não suavam. Aquele pager no meu colo, idêntico ao que é distribuído aos clientes-pacientes do Outback, apitaria a qualquer momento. Seria o sinal para eu trocar de roupas e subir para o centro cirúrgico. Lia alguns comentários e bons votos no Facebook da Marcia, já que meu celular estava com problemas no Wi-Fi. Aquilo sim me emocionava. Não só pelas palavras, mas por trazer à minha cabeça o pensamento: “Será que a Marcia está bem? Está tranquila?”. Eram 19h02. Em dois minutos uma criança pode nascer? Dá tempo de se fazer um parto? Claro que não. Mas eu sabia que ela já tinha sido levada para a cirurgia antes de 18h30. Estava marcado para 19h.

Meus pais estavam ansiosos. Eu também, evidentemente. Mas não conseguia entender a razão de não estar chorando, como alguns pais que vi passar. Endureci demais? Perdi a cor? Ou a calma era um anestésico poderoso para o que estava por vir? 19h08. Bingo! Toca o pager. Me direciono ao balcão de atendimento para saber onde deveria me trocar. Me indicam um longo corredor branco, de piso impecável e portas largas. Sigo em passo firme, com meus pais logo atrás. “É aqui?”. Não. Procuro o tal lugar por 3, 4 minutos. Encontro. Me despeço de meus pais e vou para outro corredor, mais curto e de portas estreitas, onde uma senhora de rosto marcado pela idade me espera:

– Você é o pai?
– Não sei… já sou?!
– Não… digo, o pai do bebê que está chegando, na Sala 03.
– Devo ser eu sim…

Ela confere o nome completo de minha mulher, o meu, confirma o quarto e vou trocar de roupa. Touca, máscara, sapatilhas, calça e jaleco. Me sentia um aprendiz de House. Lembrei de guardar o celular no bolso direito do jaleco, pois seria mais fácil de sacar para alguma foto. Aguardo mais uns 5 minutos esperando me chamarem. Quando ouço “o acompanhante de Marcia C. Fialho”, bate um alívio. A espera acabou. Bate o frio na espinha. Me levando do banquinho onde sentei e fiquei decorando o nome dos médicos e enfermeiros que trabalhavam naquela noite, e fui para a centro cirúrgico.

– Olha… antes de entrar, algumas instruções, ok?
– Ah, ok. Diga!
– Não pode mexer em nada da sala, e não pode encostar em nada que seja azul marinho.
– … tá.
– Boa sorte!

Assim que entro na sala, avisto a Dra. Isabel já trabalhando. Um outro médico, que confesso ter esquecido o nome, a acompanhava. Era um cara bacana. Nem ligou quando comentei que, eu, vestido de médico, tinha ficado mais magro e bonito que ele. Que sorte e beleza não eram para qualquer um e tudo mais. Nem pensei que ele estava com um bisturi cortando minha mulher ao meio, mas tudo bem. Acontece. Dei um alô para a Marcia e perguntei se ela estava bem, tranquila. Respondeu que sim. Foram 50% a menos de preocupações naqueles minutos. Dali em diante, era só esperar o Danilo chegar.

Quando me perguntaram se eu queria ver meu filho sendo retirado, rejeitei com educação. “Prefiro imaginar que ele vai subir desse pano azul, lindo e reluzente, doutora”. Não adiantou muito. Às 19h38 fui recrutado para levantar do cadeira e acompanhar o nascimento. Só tive tempo de ver os médicos puxando o Danilo para fora, segurando-o pela cabeça e costas, e erguendo-o, como n’O Rei Leão. Veio aquele choro característico dos bebês que saem de seu cantinho quente e tranquilo para o mundo frio e cruel da realidade, mas ele parecia feliz. Já saiu entregando um belo presente nas mãos do médico, que rapidamente o conteve com uma fralda aberta, estrategicamente preparada. Virei para a Marcia, já com os olhos cheios de água, e a tranquilizei: “ele é lindo, amor!”.

Meus pais acompanharam o nascimento por um vidro, do lado de fora da sala. Tirei uma foto com o celular, que depois viraram 4 fotos, sob pressão da enfermeira. Acompanhei a pesagem e limpeza, e ouvi: “O papai quer segurar o bebê?”. Respondi com mais consciência do que coração, de que nunca tinha pego um bebê no colo, muito menos, um recém-nascido. “Mas é seu filho!”. Ok, ela venceu. Claro que venceria. Como eu iria ganhar depois de um argumento desses? Segurei Danilo no colo, falei alguma baboseira de pai no seu ouvido e ele parou de chorar. Ali sim, veio a emoção, o suor nas mãos, a tremedeira… um orgulho absurdo de ter feito algo na vida que realmente valeu a pena.

Levei o Danilo para perto da Marcia, já chorando sem muito compr0misso, que recebeu um carinho com a mão. A mão dele. Danilo ganhou os primeiros beijinhos, teve o queixo avaliado com nota 10 pelo pai, e entendi que não chorei porque não era hora para choro.

danilo

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