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Custo de (sua) vida

25 de março de 2014

É bacana ter uma família. Fale a verdade: qual foi a última vez que você pensou nisso? “Ah, mas meus pais são meio chatos!”, você pode pensar. Seus tios falam demais, seus avós – se ainda vivos – parecem que não enxergam que estamos em outro milênio. Seus primos, ih, os primos… gostam de outro estilo de música, balada, religião. Nada a ver com você. Pode ser. Na verdade, bem provavelmente, é isso. Porém, você já parou para pensar quanto foi gasto com a sua criação, até hoje? E que essa grana não foi gasta apenas por obrigação, mas por muitas vezes, por carinho e preocupação com seu futuro – sim, só pensamos nisso a partir da segunda metade dos 20 anos.

Quando ouço de garotas apaixonadas que pensam em “casar e ter filhos”, logo penso: “Elas sabem o que querem, mesmo?”. Porque isso não é tão fácil quanto se pinta nos filmes e novelas. Muitos menos nas músicas. Porém, é um desejo quase que intrínseco ao ser humano: amar, juntar, procriar, zelar e… financiar. Casar não é barato, e já falei sobre isso antes. Ter filho então, muito menos. A diferença é que, o casamento, dependendo do que você optar por fazer, leva apenas alguns meses para quitar. Filhos não têm restituição. Alguma, em alguns casos. E isso leva um sonoro “infelizmente” de minha parte, porque o que tem de adulto ingrato por aí, não está no gibi.

Os cálculos são baseados no que vejo eu e a patroa pagando em diversas coisas, e também, amigos, já com filhos mais velhos. Evidente que os valores irão variar absurdos dependendo de centenas de coisas, como região do país, bairro, nível econômico das famílias e pretensão/intenção dos pais, de acordo com suas visões de vida e mundo (optar por colocar o filho para estudar em colégio particular ou não, fazer um curso extracurricular, utilizar transporte público, entre outros). Para quem quiser saber como cheguei a esses números, estou pensando ainda se posto o cálculo imaginário (com pouca realidade e muito achismo, é verdade), mas que serve como base para alguns custos necessários e indispensáveis. Vamos lá.

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Primeira infância (0 a 6 anos): talvez seja o período mais “simples”. Gasta-se com fraldas, comidinhas (ou leite, como ainda e será, por um bom tempo, nosso caso) e, possivelmente, berçário, até os primeiros anos de vida. Depois de uns 2 anos, tudo vira “escolinha”. Um brinquedinho aqui, um mimo acolá, remédios e exames (sim, crianças adoecem, não importa o quão bem vocês cuidem de seus pequenos), além de roupas que durem mais do que 2 meses (pois é!) e alguns passeios “em família”. No total, um casal gastará, em média, cerca de R$ 150 mil.

Fase “- eu quero – quer é uma chinelada!” (7 a 10 anos): o filho já está no “colégio”. Mensalidades cada vez mais altas, mais material pedido pela escola, mais lanche, transporte, uniforme, excursões. Curso de música, línguas, esportes em geral (claro que podem ser iniciados antes, se for do gosto dos pais/filhos, mas coloquemos aqui). Começam os passeios com amiguinhos e amiguinhas (supervisionados, é claro – o que também custa mais, uma vez que você lá, também gasta), mais gastos com saúde (quem sabe o primeiro gesso?), modernices tecnológicas (inclua o que bem entender aqui), mais roupas… mais tudo. Chegamos na afável casa dos R$ 129 mil (ufa, né?).

Pré-adolescência (11 a 14 anos): Lembram como era legal essa época? O mundo era injusto, seus pais eram injustos, seus pelos pubianos e espinhas eram injustos. Só que seu colégio ficava mais caro, você queria (porque precisava demais!) sair mais com seus amigos, atualizar suas modernices, usar roupas mais cheias de mimimi… tanta coisa. Pior: você ainda queria mesada. Vamos lá. Pensem que bacana será viver isso com seus filhos, em pleno século 21, onde as coisas mais baratas da vida de um mini-cidadão custam cerca de R$ 50. Se prepare para repensar em trocar de carro e gastar cerca de R$ 172 mil.

Adolescência (15 a 18 anos): Ok, chegou a hora do “vamos ver!”. O filho começa a sair do colégio (se não for vagal e tiver pais chatos, daqueles que ficam em cima), e se prepara para a vida acadêmica. Aqui, vamos supor que o rebento comece a trabalhar aos 16 anos. Um emprego “qualquer”. Algo que pague, no caso, seus custos próprios de estilo de vida: baladas, viagens curtas com os amigos, roupas e modernices, além daquele fast-food que ninguém deveria conhecer o maravilhoso sabor. Colégio ainda mais caro, roupas idem, saúde em valores estabilizados – porém, não pequenos – e outras despesas habituais da idade. Lembre-se que você ainda banca, também, alimentação, transporte, e… a conta de luz. Tende a ficar cada vez mais alta. Principalmente em função a banhos mais longos e noites intermináveis na internet. Sua continha, porém, não foge muito do que se imagina em uma escala de acréscimos: cerca de R$ 205.000.

Portanto, criar um filho – até os 18 anos, bancando praticamente tudo para ele -, tomando alguns cuidados e evitando outros exageros, custará cerca de R$ 656 mil. Alguns podem achar o número absurdamente exagerado para mais – outros, e acreditem, não poucos – para menos. Porém, uma constatação é lógica e obrigatória: botar filho no mundo NÃO é brincadeira de criança.

Agora vão lá passar um cheque pré-datado para seus pais, para cair lá pra 2.065.

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Tá de Abrinqs comigo?

13 de março de 2014

Passou o carnaval, o aniversário da minha mulher, a troca de fraldas do Danilo, o MH-370, e eu ainda não havia feito nada de bom ao próximo em 2014. Eis que, saindo do trabalho, terça-feira, uma jovem me para, em frente à estação de trem. Colete laranja, uma prancheta na mão… logo pensei: “Do Ibope ela não é, eles vestem azul…”. Sim, eu já fui entrevistado pelo Ibope – é, eles entrevistam as pessoas, mesmo. Na época, foi sobre a corrida eleitoral em São Paulo. Estávamos em 2010. Só tive que mentir a profissão, pois eles não podem pesquisar jornalistas. E eu estava com caxumba, então também menti ao responder que não estava sob efeito de qualquer medicamento. Pois bem… fugimos do assunto.

A jovem já chegou cheia de intimidade, segurando-me pela mão e perguntando “Podemos conversar um pouquinho?”. Parei. Confesso que só aceitei conversar porque, como estava bem perto da estação e não poderia entrar fumando, meu restinho de cigarro seria gasto por um bom motivo – eu o teria fumado. Ela seguiu conversando sobre algumas amenidades comigo, inclusive, elogiando minha aparência (sim, um cara barbado, fumando, suado, coisa bem sexy).

Qual o seu nome?
Ahm, Rafael.
Rafa (óia as intimidade), prazer, sou a Renata! Tudo bem com você?
Hmmm… tudo. (que porra é essa?)
Quantos aninhos você tem? (nesse momento eu juro que pensei que o Barney surgiria de trás de alguma árvore, cantando e dançando, me chamando pra brincar).
Trinta… er, o que está acontecendo?

Daí ela me explicou tudo. Ela faz parte de uma equipe da Abrinq, que é responsável por “divulgar as ações da instituição” e angariar doações. Claro. Para falar comigo como se eu fosse criança, só sendo retardada trabalhando com crianças, mesmo. Então ela me mostrou a prancheta (atenção! prancheta!), e começou a fazer perguntas mais preocupantes.

Desse folheto, qual você acha que é a área mais importante para o auxílio das crianças?
Ah… educação? (fiquei com medo de estar errado e ela mandar um “Ahhh, errooou, que peninha de galinha!”)
Olha, educação é a área em que mais precisamos de ajuda, viu? (vi)
Então, com quanto você acha que pode ajudar?
…R$ 35. (eram R$ 30 para a saúde, R$ 35 para educação, e R$ 40 para… alguma outra coisa)
Ok, Rafinha (wtf?), você pode ajudar com desconto em conta ou cartão de crédito?

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Eu já estava extremamente arrependido de ter deixado aquele cigarro queimar entre meus dedos, e chegava o momento cabalístico de “ajudar o próximo”. Sem pensar demais – ou teria desistido -, passei meus dados do cartão. Confirmei tudo, recebi um bloco de notas como “presente” e tudo mais. Chegando em casa, contei, meio envergonhado, tudo para a Marcia. Achando que ela iria me parabenizar por pensar no futuro das crianças, ela se antecipou e contou, passo a passo, tudo o que Renata havia feito e dito para mim. “Isso é habitual. Na Avenida Paulista eles se separam em equipes, que ficam em 3 pontos distintos. Os meninos vão atrás das mulheres, as mulheres vão atrás dos homens. Ela já chegou segurando sua mão e dizendo que você era bonito?”.

Ou seja, amiguinhos: mulher não xaveca homem à toa, ok? Elas só querem seu dinheiro. Nem que seja para crianças carentes.


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