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Tivemos culpados, não mártires. Ainda bem!

10 de julho de 2014

Claro que foi humilhante. Para o torcedor médio, para o torcedor de estádio, para o torcedor de Copa. Para o Felipão, para o Parreira, Muricy, Tite, Luxemburgo, Mano Menezes. Foi humilhante para Júlio César, Dida, Taffarel, Leão. Foi humilhante para Marin, Ricardo Teixeira, Andrés Sanchez, Juvenal Juvêncio, Paulo Nobre. Foi humilhante até para os alemães, que nos presentearam com o inverso da imagem que muitos têm deles: pessoas frias, sérias, caladas. Qualquer pessoa relacionada ao futebol e que se relaciona com o esporte levou uma joelhada na coluna com os 7×1 da última terça-feira.

Agora, pipocam as teorias sócio-futebolísticas sobre o resultado da Seleção. Da ladainha que a derrota é um retrato da sociedade brasileira, ao mais básico, raso e rasteiro “é preciso renovar”. É fácil se valer de um fracasso para angariar novas teorias sobre o esporte. “Sabíamos que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde”. Mentira. Sabíamos, sim, que poderíamos ser derrotados. Até a Liga da Justiça pode ser derrotada. Não por 7×1. Não com 4 gols em pouco menos de 8 minutos. Não. Nem aqui, nem na China, quiçá na Argentina.

Tivemos culpados? Claro que sim. Alguns, bem longe de nossa influência. Marin, exemplo mais clássico. Felipão, talvez. Parreira, ora bolas, por que não? Fred, o artilheiro dos gols fantasmas, muito provavelmente. Mas, no caso específico da partida contra a Alemanha, não. Ali, vimos a queda do ídolo. Recente, é verdade. David Luiz foi o principal personagem do Brasil nessa Copa do Mundo. Midiaticamente, calorosamente, tecnicamente, taticamente. Tornou-se o Neymar da zaga brasileira”. Porém, sabemos que não há nada melhor do que um herói, do que um herói morto.

O corinthiano, radicado no Chelsea, dono de uma cabeleira que se tornou modelo de brasilidade em Copa – não, não estamos falando do Willian, agora -, foi vítima de seu principal poder: a confiança na própria técnica refinada. Sabe jogar como zagueiro. Sabe jogar como volante. Pode ser líbero. Pode subir ao ataque e fazer assistências. Faz gols de cabeça. Faz gols de fora da área. Faz gols de falta. Só não sabe fazer isso tudo, ao mesmo tempo, em uma única partida. Em 29 minutos. E foi o que tentou fazer na terça-feira.

Comentei há poucos dias, no Facebook: “David Luiz é o personagem positivo dessa Copa. Salvo um desastre pessoal”. E ele veio. Notem que em todos os gols alemães, David Luiz está fora de posição. Em um dos gols, não marcou ninguém. Nem quem devia – Müller. O atacante fez um gol de pé, com o pé, em uma cobrança de escanteio. Como? Bem, David Luiz sabe. Nos gols seguintes, aquela surra com salsichão, o camisa 4 estava diretamente envolvido em todos. Hora tentando carregar a bola até o meio campo, hora estando fora de posição quando Fernandinho perdeu a bola na intermediária defensiva. Sem velocidade para voltar à área – sim, estava novamente tentando o ataque – não pôde ajudar a impedir o quarto e quinto gols.

No sexto gol, sobrou inteligência aos atacantes e meias alemães. Talvez, o único lance crucial da partida sem a participação do zagueiro brasileiro. No sétimo gol, na velocidade, uma bola “estourada” para dentro da área, não chegou a tempo para evitar o chute de Schurrle. E acabou. Ninguém nem notou o gol de Oscar. Nem tinha razão para notar. Fechou-se o caixão com sete pregos, enterrado a sete palmos. E não bastaria um Neymar coveiro para salvar qualquer coisa ali.

Graças ao bom deus do futebol, não tivemos mártires. Essa Seleção irá carregar, até a próxima derrota por 8 gols em uma Copa do Mundo, a maldição de 1950. Trocamos os calos de mãos, apenas. E isso é ótimo. Nada pior do que apanhar da mulher na frente da amante, do que apanhar da amante e da mulher em frente dos filhos. A analogia pode ser péssima, mas imaginem um jogador, mesmo que este possa ser Neymar, saindo ileso de uma derrota retumbante quanto esta? Seria justo? Digno? Saudável para o futebol? Não, todos morreram com a mesma rajada de gols, sem sobreviventes. Não. Não temos mártires. Ainda bem!

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