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Eu, Mórmon

20 de janeiro de 2015

Quarta-feira passada, por volta das 20h, voltava da padaria. Fui comprar o básico para a sobrevivência: pão, presunto, queijo, refrigerante, cerveja e cigarros. Subindo a rua, quase no portão de casa, avistei dois rapazes de camisa social branca, calça social preta, sapatos sociais, gravata e aquelas bolsas de ombro masculino-feminino. Já tinha os visto algumas outras vezes. Sempre mudava de calçada ou fingia que o volume dos fones de ouvido estavam altos demais para conseguir ouvir um “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite”. Naquela noite, porém, eu estava sem fones. Alvo fácil.

missionarios-mormons

– Boa noite, tudo bem?
– Opa, e aí? Beleza, e vocês?
– Tudo bem. Podemos conversar um pouco com você?

Pelo aperto de mão, senti que estavam desarmados. Mas aquela bolsa no ombro ainda me assustava. Iriam tirar dali uma bíblia? Uma revista? Um caderno brochura com todos meus pecados? Um Mupy?

– Claro, claro, fala aí!
– Somos da Igreja Mórmon (Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias). Você conhece?
– Ah, sim, conheço. É aquela que foi fundada nos Estados Unidos, certo?

Pensei seriamente em falar que sabia da recém-revelada história sobre o fundador da igreja, Joseph Smith, que se casou com cerca de 40 mulheres, inclusive, menores de idade. Também pensei em citar que sabia que Brandon Flowers era mórmon – e eles iam me perguntar de que banda ele era. Mas a noite estava agradável e eu tinha cerveja e cigarros.

– Nossa! Isso mesmo! Como você conheceu?
– Ah, já tive amigos que frequentaram… (mentira camisa social branca).
– Que legal, que legal… e… você faz o quê?

Moro num bairro de classe média-alta, mas pagamos aluguel. Imaginei que eles esperavam uma resposta como “empresário”, “acionista” ou “consultor”, que é o termo da classe alta para “desempregado, mas com dinheiro”.

– Ahm… sou publicitário. Quer dizer…
– Publicitário? O que é isso? O que faz um publicitário?

Os mórmons que me pararam na rua eram, claramente, gringos. Arrastavam um português nota 6 – acima da média de muitos brasileiros letrados, diga-se de passagem. Balbuciavam palavras com alguma dificuldade e franziam as testas quando eu usava palavras como “assertividade” e “burocracia”. Enfim, expliquei que era jornalista, mas que trabalhava com publicidade.

– E você mora por aqui?
– Sim, por aqui – eu estava a 20 metros do meu portão, por isso, me limitei a apontar para um lado e dizer “ali”.
– Ah, então você conhece o Geraldo?
– Ahm… não. Confesso que não conheço muito bem meus vizinhos. Quase não paro em casa.

O papo já estava ficando comprido demais. Cinco minutos é um tempo que só costumo perder com colegas de trabalho e pessoas que conheço de rosto, me consideram amigo mas que não me lembro do nome ou de onde conheci.

– Então, pessoal. Bacana conhecer vocês, mas tenho que ir para casa. Criança pequenas esperando, sabem como é…
– Ah, então você tem filho? – porra, Koelho!
– É… tenho. De 1 ano, um menino.
– Que legal, que legal. Você gostaria de conhecer nossa igreja?

Eu sei onde fica a igreja deles. É bem bonita, por sinal. Fica a uns 10 minutos de casa, caminhando.

– Olha… pode ser. Pode ser que um dia desses eu apareça lá, ok?
– Então ME PASSA SEU TELEFONE QUE TE LIGAMOS PRA CONVERSAR MAIS!

Quase pensei ser um assalto. Mesmo com o rosto bondoso e calmo, a roupa bem alinhada, o comportamento reto. Vai que…

– Ah, sim. Anota aí – e passei meu número antigo, que não possuo desde 2011.
– Ah, tá ótimo! Rafael, certo?
– Sim, Rafael.
PODEMOS PASSAR NA SUA CASA NA SEXTA-FEIRA À NOITE, PARA CONVERSAR MELHOR?

Mano, calma lá. Na minha casa? Sexta-feira à noite? Pra conversar? Monogamia, meus amigos, sou adepto da monogamia!

– Olha, aí é complicado… eu chego tarde, às vezes não tenho tempo nem para ver TV… sabem como é…
– Claro, claro… QUE LEGAL! – oi?
– Então, pessoal… boa noite!
– Boa noite! Te esperamos no domingo na igreja, às 11 horas, pode ser?
– Opa, claro. Se der eu colo lá.
– Isso é para você nos conhecer melhor – e entregou um caderno de brochura, mas sem meus pecados. Apenas com a imagem de JC na capa e dentro… bem, não abri, não sei.

Acabei trombando com eles outra vez, no sábado de tarde. Meio que me ignoraram, mas fiz questão de mandar um “Boa tarde!” com um grande sorriso no rosto, aqueles que só carregam os tementes a Deus e à poligamia.

Aposto que tentaram me ligar.
Aposto que me esperaram no domingo.
Aposto que viram as latas de Germânia e o cigarro na sacola da padaria.

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Que venha 2016

6 de janeiro de 2015

Nenhuma promessa feita, nenhuma meta traçada, nenhum objetivo diferente dos que já planejei e atrasei. O ano acabou, porque todo ano é assim. E todo ano é assim para tudo: você precisa trabalhar para pagar suas contas, se sustentar, sustentar seu filho, sua casa, seu estilo de vida, seus vícios, seus momentos de lazer. Você precisa se endividar para fazer 2/3 de tudo isso. Além, é claro, de se endividar ainda mais, nem que seja de ato pensado, quando decide viajar ou adquirir algo fora de suas capacidades reais. Ou seja, meus amigos, 2015 é ano de trabalho. E de contas. E de dívidas. E responsabilidades. Assim como foram os últimos 6 anos – ao menos, para mim. E serão os próximo 66 – se eu viver até lá, algo que me deixaria extremamente surpreso.

O trabalho é o mesmo, os problemas são os mesmos, as brigas são as mesmas. Os amores, paixões, dissabores, expectativas, tudo a mesma coisa. O que muda é, quem sabe, a forma de encarar as coisas. Deixar de tratar algo como problema ou peso, e começar a lidar com o assunto com subjetividade. O inverso também é válido. O cigarro, como viram no meio do ano passado, foi assim para mim. Passou de problema e peso na consciência para algo subjetivo. O problema tornou-se algo subjetivo, não o ato de fumar. Perdi peso quando parei de fumar – 3,4 kg em 2 meses, para ser exato. Voltei a fumar e engordei outros 2,5 kg. No frigir dos ovos, a pausa no cigarro me fez perceber duas coisas: 1. Não há tempo a perder além do que já perdemos; 2. Não, parar de fumar não engorda.

Comecei o ano com uma febre de 38,4°, fato que adiantou o fim das “férias”. Desidratação. Sob o sol de mais de 33° C (alguns dias, chegando a inenarráveis e insuportáveis 37° C), o que menos fiz em 5 dias em Santos foi tomar água. Coca-Cola, Guaraná Paulistinha, Vodka, Cerveja. O corpo faliu. Eu transpirava de forma abrupta, sem saber ao certo a razão, até pensar: de onde vem essa água toda? Sim, eu comecei 2015 errando, e não há porque me martirizar por isso. Eu erro todo ano, esse não tem nada de especial para ser diferente. Pelo menos o Danilo já conhece o gosto da areia da praia e a Marcia e eu sabemos que apartamentos de frente para o mar não são tão legais assim. Ponto positivo para 2015 para nós, com direito àquele carimbo de professora primária no caderno. Um sol atirando com uma bazuca, provavelmente.

Comprar uma bicicleta, entrar na natação, comprar 2 pares de tênis novos, viajar mais, me estressar menos com tudo.
Coisas que não vou conseguir fazer em 2015.
Ao menos, em parte.
Que venha 2016.

nada


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