Posts Tagged ‘Danilo’

Segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

3 de fevereiro de 2015

Voltar de um fim de semana para a mesa do trabalho nunca é fácil. A sexta, sábado e domingo podem ser divertidos, recheado de amigos e histórias engraçadas, festas, encontros, momentos mágicos, mas a segunda-feira estará sempre lá, nos colocando nos trilhos da realidade. Ontem não foi diferente. O fim de semana tinha sido pesado: Danilo está, mais uma vez, com um “dente chato” nascendo. Não houve febre como em algumas outras vezes, mas o bom humor do pequeno se foi. Nem a festinha de aniversário da Lara, filha da Jadiny, tinha o convencido que seria um final de semana divertido. Choro, manha, cara fechada e hiperatividade. O dia dele parecia ter 48h. O nosso, 72h.

Coloca no carrinho e passeia. Cansa. Tira do carrinho, coloca no chão. Escala a escada. Tira da escada, coloca no cadeirão para alimentar. Cospe tudo, berra, chora. Coloca o DVD da Galinha Pintadinha: alguns poucos minutos de alívio – para todos. Isso foi sábado e domingo. O coitado cansou, eu cansei, a Marcia cansou. Até a Ramona deu uma caída, visto que não quis brincar de bola com o tubarão de 14 meses. O domingo terminou e veio aquela sensação: “Ufa! Ainda bem que amanhã é segunda-feira”.

Trabalhei normalmente. A chuva logo pela manhã, o trem lento, o guarda-chuva furado, a internet lenta. A melhor parte do “dia útil” foi almoçar a feijoada que fiz no domingo – sim, ficou muito boa, obrigado. Na volta, veio a dúvida que não saiu da minha cabeça ao longo do dia inteiro, mas que eu evitava trazer à tona: “será que vai estar tudo igual?” Não, não estava. Ainda bem.

Chego em casa, brinco rapidamente com a Ramona e dou um beijo na Marcia. “E ele, como é que está?”. Ele já estava sorrindo. Feliz em me ver (isso é MUITO gostoso). Lavo as mãos, pego ele no colo e saio passeando pela casa. “E aí, como foi seu dia no berçário? Aprendeu coisa nova? Brincou bastante?”. A resposta é quase sempre a mesma: “- papapapapa” e aponta para alguma coisa que ele quer. Mamadeira, tv, folhas na árvore, carro e por aí vai. Toca o celular. É do trabalho. “Puta que pariu!”.

Trabalho “urgente”. Vou usar o notebook da Marcia, pois estou com preguiça demais de ir até os fundos da casa e usar o PC. Danilo fica no chão brincando com alguma coisa que nem me lembro mais, e a mãe por perto. De repente, ele me vê trabalhando e diz: “Papaiê!”. Não paro de trabalhar – idiota. A mãe já chorando, eu rindo e respondendo ao maldito e-mail recheado de erros de português. “Enviar”. Tchau, segunda-feira. Tchau sábado trabalhoso, tchau domingo chato. Levanto, beijo o pequeno, pego no colo e voltamos a brincar. Não repetiu mais a palavra mágica, mesmo comigo insistindo.

Não tô nem aí.
Ontem, “mêsversário” dele, quem ganhou o presente fomos nós.
Essa segunda-feira podia não ter fim.

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Que venha 2016

6 de janeiro de 2015

Nenhuma promessa feita, nenhuma meta traçada, nenhum objetivo diferente dos que já planejei e atrasei. O ano acabou, porque todo ano é assim. E todo ano é assim para tudo: você precisa trabalhar para pagar suas contas, se sustentar, sustentar seu filho, sua casa, seu estilo de vida, seus vícios, seus momentos de lazer. Você precisa se endividar para fazer 2/3 de tudo isso. Além, é claro, de se endividar ainda mais, nem que seja de ato pensado, quando decide viajar ou adquirir algo fora de suas capacidades reais. Ou seja, meus amigos, 2015 é ano de trabalho. E de contas. E de dívidas. E responsabilidades. Assim como foram os últimos 6 anos – ao menos, para mim. E serão os próximo 66 – se eu viver até lá, algo que me deixaria extremamente surpreso.

O trabalho é o mesmo, os problemas são os mesmos, as brigas são as mesmas. Os amores, paixões, dissabores, expectativas, tudo a mesma coisa. O que muda é, quem sabe, a forma de encarar as coisas. Deixar de tratar algo como problema ou peso, e começar a lidar com o assunto com subjetividade. O inverso também é válido. O cigarro, como viram no meio do ano passado, foi assim para mim. Passou de problema e peso na consciência para algo subjetivo. O problema tornou-se algo subjetivo, não o ato de fumar. Perdi peso quando parei de fumar – 3,4 kg em 2 meses, para ser exato. Voltei a fumar e engordei outros 2,5 kg. No frigir dos ovos, a pausa no cigarro me fez perceber duas coisas: 1. Não há tempo a perder além do que já perdemos; 2. Não, parar de fumar não engorda.

Comecei o ano com uma febre de 38,4°, fato que adiantou o fim das “férias”. Desidratação. Sob o sol de mais de 33° C (alguns dias, chegando a inenarráveis e insuportáveis 37° C), o que menos fiz em 5 dias em Santos foi tomar água. Coca-Cola, Guaraná Paulistinha, Vodka, Cerveja. O corpo faliu. Eu transpirava de forma abrupta, sem saber ao certo a razão, até pensar: de onde vem essa água toda? Sim, eu comecei 2015 errando, e não há porque me martirizar por isso. Eu erro todo ano, esse não tem nada de especial para ser diferente. Pelo menos o Danilo já conhece o gosto da areia da praia e a Marcia e eu sabemos que apartamentos de frente para o mar não são tão legais assim. Ponto positivo para 2015 para nós, com direito àquele carimbo de professora primária no caderno. Um sol atirando com uma bazuca, provavelmente.

Comprar uma bicicleta, entrar na natação, comprar 2 pares de tênis novos, viajar mais, me estressar menos com tudo.
Coisas que não vou conseguir fazer em 2015.
Ao menos, em parte.
Que venha 2016.

nada

Seis meses de Danilo. O que mudou?

2 de junho de 2014

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Dizer “seis meses” é uma falta precisão, já que Danilo está conosco desde o fim de março do ano passado. Seriam, portanto, quase 16 meses. Porém, de 3 milímetros a quase 70 centímetros, embrião a bebê, muita coisa mudou. Pesando mais para um lado do que para o outro (leia-se mais para a Marcia do que para mim), as alterações na vida foram grandes e sensíveis. Na casa, idem. De um apartamento bem localizado, próximo a Metrô e às conveniências de um casal balzaquiano (bares, restaurantes, baladas), a um sobrado com quintal, com um quartinho só para ele, e mais próximo aos avós e amigos “pra toda hora”. Ramona também é parte importante de todo o processo: aprendemos, aos poucos, o que era ter um bebê em casa – sim, cachorros são bebês pela vida inteira, mesmo quando ficam velhinhos, mais lentos, cegos e quase surdos, como é o caso do Rocco.

O corpo da mulher muda, o humor do casal fica diferente, o pai estranha a falta daquela sensação que só a mãe entende – a de já ser completamente responsável por uma nova vida. O homem vira mais psicólogo, a mulher vira mais gestora. A Ramona, que ficava alegre ao ouvir o som do coração do Danilo batendo na barriga da mãe quando se deitava em seu colo, hoje sente falta disso. Ela ficou mais manhosa, um pouco mais ciumenta, mas extremamente parceira e protetora do “irmão” mais novo. Depois do nascimento, o casal vira mais casal. As comemorações ficam mais gostosas, as preocupações se tornam mais frequentes, e cada solução encontrada representa algumas horas a mais de consciência tranquila.

Na prática, o sono e o cansaço aumentam, a disposição diminui e os dias ficam mais longos. Bate aquela saudade das 24h de antes, que viram 36h. Qualquer ruído durante a noite ou a soneca do bebê vira uma explosão nuclear, e qualquer suspiro “diferente” vira Defcon 1. Normalmente, não é nada. O estado de alerta mantém as coisas em seu lugar: se ele chamar, estaremos lá. Se não chamar, também. Danilo deu “trabalho” do fim de seu primeiro mês à metade do segundo. Cólicas. Nele, doíam e incomodavam. Em nós, abria buracos no peito e engarrafamentos no cérebro: “Por que não acaba?”, “Já demos o remédio?”, “Será que é normal?”, “Mas o dia já nasceu?” eram questões que se tornaram tão comuns nas intermináveis 3 semanas de crise que, quando passou, imaginávamos que deveria ser alguma pegadinha do pequeno. E não era. Melhorou mesmo.

As noites, que custavam a passar, de repente, viraram rotineiras 5/4h de sono ininterruptas por noite. Sim, isso é um número alto. Depois, viraram 6/7h. Alguns dias, inacreditáveis 8/9h. E o menino crescia, rindo de tudo e de todos – principalmente ao fazer xixi ou… er… vocês imaginam – e reconhecer sons, vozes e rostos, aos poucos. Não gosta, até hoje, de deitar. Não gosta de sentar – e ainda está aprendendo a fazer isso. Quer ficar de pé o tempo todo. No colo, no sofá, na cama. Imagino que, assim que tiver total equilíbrio e controle de seu próprio corpo, vai pular a fase de engatinhar e sair correndo. Não que eu queira isso. Mas é possível. Hoje, já no berçário, não estranha nada. Nem o fato de passar angustiantes 9h sem mãe ou pai. Segundo as tratadoras, é calmo e gosta de música. Parece verdade, já que em casa isso acontece com frequência.

Virei repentista. Por dia, invento umas duas músicas para cantar para ele. Não para fazê-lo pegar no sono, mas para brincar. São rimas bobas, que misturam o nome dele, da Ramona, adjetivos e um pouco de bullying. Juntem as pedras e ataquem, mas eu gosto de tirar um sarrinho dele e com ele. “Danilo cara de tatu”, entre outras canções, são sucessos de audiência nos sorrisos banguela dele. Se eu tivesse metade dessa criatividade espontânea na época de Seven Elevenz, provavelmente teríamos lançado 30, não 3 álbuns. Marcia virou especialista em acalmar, reconhecer sinais, dar banho e arrancar gargalhadas dele. Também é a estilista da vez, já que escolhe/compra 90% das roupas dele. De agasalhos que imitam carneiros a camisas com frases como “Segurança da mamãe”. Ela pode. Eu deixo. Comprei uma camisa oficial do Brasil para ele ver os jogos da Copa. Mesmo sabendo ser exagero. Mesmo sabendo que é inútil, pois ele não sabe o que está acontecendo. Mesmo sendo caro. A próxima camisa dessas será do Corinthians. Quer a tricolor queira, quer não.

Tínhamos a esperança de nascer com belos olhos verdes, como os da mãe. Veio ao mundo com meu queixo, minhas bochechas, meus olhos e – graças ao bom Joey – com a pele e cabelos da mãe. Danilo gosta de peras e sopinha de frango. Eu, nem tanto. Ah, veio com meu humor para fotografias. Tenho umas 40 fotos dele no celular – mais da metade, de cara fechada. Alguns chamam de charme. Eu chamo de genética (cof). Mas é carinhoso como a progenitora, já que aprendeu a dar abraços enquanto está no colo e “ameaçar” beijinhos, mesmo que ainda de boca aberta, tentando “morder” o rosto dos outros. Nem imagino o que fazer quando ele trocar o barulho de pum que faz com a boca por “pai” ou “mãe”.

Mas isso são 6 meses.
SÓ.

Nova estação

2 de abril de 2014

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A cada 4 meses, o clima do planeta se altera. Cada hemisfério com sua particularidade. Ok, em São Paulo isso ocorre a cada 4 horas, mas vale a intenção. De lá para cá, na minha casa e em meus sapatos, muita coisa mudou. Invariavelmente, para melhor. Sim, isso é bem, bem estranho, para não dizer inacreditável. A tendência, para mim, costuma ser: o ano vai bem até dezembro. De julho a dezembro. O resto do ano, naturalmente, é uma grande porcaria. Em todos os sentidos.

O Danilo completa 4 meses hoje. Às 19h35, se não me engano. Estarei chegando em casa. Isso porque trabalho, atualmente, no Brooklin. Saio às 19h, em dias sem problemas. O trajeto empresa-trem / trem-Metrô / Metrô-caminhada para casa leva 35 minutos. Mas a empresa vai se mudar para a região do Ceasa. Longe. Muito longe. Tendo em vista que, às vezes, minha hora extra é de 5 horas, seria complicado voltar de tão longe por volta de 1 da matina, ainda pagando táxi. O desespero começou a bater. “Po, nem vou conseguir ver o Danilo acordado!”.

Eis que, “do nada”, me ligam de uma agência de RH que, confesso, nunca tinha ouvido falar. Proposta, contra-proposta, entrevista marcada. Em menos de 24h, emprego novo, local mais perto e salário melhor. Como explicar? “O Danilo te dá sorte”, disse minha mãe. Eu não acredito em sorte, mas um pouco de superstição, nessas horas, ajuda a explicar algumas coisas. As que não explica, a gente usa o argumento de “tudo certo, na hora certa”. Que também é superstição. Por sinal, a Marcia percorre um caminho bastante parecido, nesse momento. Em tudo, praticamente.

Vai ver é o outono.
Vai ver é o Danilo.
Vai ver é coincidência.
Vai ver é a lua.

O que que tem na sopa do neném?

7 de janeiro de 2014

Se ele já estiver com algumas centenas de dias, pode ter um misto quase infinito de ingredientes. Se tiver pouco mais que 3 dezenas de dias, como o Danilo, não tem sopa. Não tem nem a água da sopa. Não tem uma cor muito atrativa, cheiro especial ou sabor irresistível. Ao menos, para nós. Ou para bebês mais “velhos”. Danilo é do time do leite, assim como o Chapolin. Do peito, da lata, de onde for. Sim, de onde for. E continuará assim, por um bom tempo.

Muito mais complicado do que descobrir o que tem na sopa do neném, é saber por qual motivo o neném chora. Na verdade, isso é até fácil. Difícil é encontrar a alternativa correta para tantas opções:

– Fome;
– Sono;
– Frio;
– Calor;
– Dor de cólicas;
– Dor de gases;
– Refluxo;
– Fralda suja;
– Posição incômoda;
– Muita luz;
– Pouca luz;
– Muito barulho;
– Carência;
– Tédio.

Danilo começou bem. Logo em sua chegada, chorou por chorar, como deveria ser. Não sentiu dor em momento algum, até umas 8 horas após o parto, quando vieram os gases. E os soluços – que não doem, mas que o incomodam tremendamente. Hoje, é qualquer um desses motivos listados acima. O que se transforma em algo como andar de montanha-russa, sem proteção, carregando uma criança no colo, vendo um looping chegar, sem poder gritar para não acordar o dragão que dorme debaixo dos trilhos.

Perto dos 4 kg, Danilo, logo mais, sairá da fase de tantas dores. Dizem os experienciados que elas vão sumindo aos poucos, com a chegada dos 3, 4 meses. Ou seja, ainda serão, ao menos, 60 dias de noites enormes e tardes cumpridas demais. Mas está tudo bem. Ele já consegue erguer a cabeça e mudá-la de posição, quando acha conveniente, sempre com nossa supervisão. Em breve vai entrar nas roupas P com mais facilidade – sim, acreditem ou não, ele é pequenino. E as roupas RN, até pouco menos de 1 semana, ficavam até folgadas.

Agora eu caibo na roupa, mano!

Agora eu caibo na roupa, mano!

Falando em folgadas, Ramona também não sabe o que tem na sopa do neném. Mas ontem descobriu que temperamos os filés de frango com sal e pimenta do reino. E descobriu sem nossa ajuda, já beirando os 9 meses. Cada bebê cresce no seu ritmo, não?

Eu parto, tu partes, ele parte

9 de dezembro de 2013

No hall de entrada do hospital, as mãos não suavam. Aquele pager no meu colo, idêntico ao que é distribuído aos clientes-pacientes do Outback, apitaria a qualquer momento. Seria o sinal para eu trocar de roupas e subir para o centro cirúrgico. Lia alguns comentários e bons votos no Facebook da Marcia, já que meu celular estava com problemas no Wi-Fi. Aquilo sim me emocionava. Não só pelas palavras, mas por trazer à minha cabeça o pensamento: “Será que a Marcia está bem? Está tranquila?”. Eram 19h02. Em dois minutos uma criança pode nascer? Dá tempo de se fazer um parto? Claro que não. Mas eu sabia que ela já tinha sido levada para a cirurgia antes de 18h30. Estava marcado para 19h.

Meus pais estavam ansiosos. Eu também, evidentemente. Mas não conseguia entender a razão de não estar chorando, como alguns pais que vi passar. Endureci demais? Perdi a cor? Ou a calma era um anestésico poderoso para o que estava por vir? 19h08. Bingo! Toca o pager. Me direciono ao balcão de atendimento para saber onde deveria me trocar. Me indicam um longo corredor branco, de piso impecável e portas largas. Sigo em passo firme, com meus pais logo atrás. “É aqui?”. Não. Procuro o tal lugar por 3, 4 minutos. Encontro. Me despeço de meus pais e vou para outro corredor, mais curto e de portas estreitas, onde uma senhora de rosto marcado pela idade me espera:

– Você é o pai?
– Não sei… já sou?!
– Não… digo, o pai do bebê que está chegando, na Sala 03.
– Devo ser eu sim…

Ela confere o nome completo de minha mulher, o meu, confirma o quarto e vou trocar de roupa. Touca, máscara, sapatilhas, calça e jaleco. Me sentia um aprendiz de House. Lembrei de guardar o celular no bolso direito do jaleco, pois seria mais fácil de sacar para alguma foto. Aguardo mais uns 5 minutos esperando me chamarem. Quando ouço “o acompanhante de Marcia C. Fialho”, bate um alívio. A espera acabou. Bate o frio na espinha. Me levando do banquinho onde sentei e fiquei decorando o nome dos médicos e enfermeiros que trabalhavam naquela noite, e fui para a centro cirúrgico.

– Olha… antes de entrar, algumas instruções, ok?
– Ah, ok. Diga!
– Não pode mexer em nada da sala, e não pode encostar em nada que seja azul marinho.
– … tá.
– Boa sorte!

Assim que entro na sala, avisto a Dra. Isabel já trabalhando. Um outro médico, que confesso ter esquecido o nome, a acompanhava. Era um cara bacana. Nem ligou quando comentei que, eu, vestido de médico, tinha ficado mais magro e bonito que ele. Que sorte e beleza não eram para qualquer um e tudo mais. Nem pensei que ele estava com um bisturi cortando minha mulher ao meio, mas tudo bem. Acontece. Dei um alô para a Marcia e perguntei se ela estava bem, tranquila. Respondeu que sim. Foram 50% a menos de preocupações naqueles minutos. Dali em diante, era só esperar o Danilo chegar.

Quando me perguntaram se eu queria ver meu filho sendo retirado, rejeitei com educação. “Prefiro imaginar que ele vai subir desse pano azul, lindo e reluzente, doutora”. Não adiantou muito. Às 19h38 fui recrutado para levantar do cadeira e acompanhar o nascimento. Só tive tempo de ver os médicos puxando o Danilo para fora, segurando-o pela cabeça e costas, e erguendo-o, como n’O Rei Leão. Veio aquele choro característico dos bebês que saem de seu cantinho quente e tranquilo para o mundo frio e cruel da realidade, mas ele parecia feliz. Já saiu entregando um belo presente nas mãos do médico, que rapidamente o conteve com uma fralda aberta, estrategicamente preparada. Virei para a Marcia, já com os olhos cheios de água, e a tranquilizei: “ele é lindo, amor!”.

Meus pais acompanharam o nascimento por um vidro, do lado de fora da sala. Tirei uma foto com o celular, que depois viraram 4 fotos, sob pressão da enfermeira. Acompanhei a pesagem e limpeza, e ouvi: “O papai quer segurar o bebê?”. Respondi com mais consciência do que coração, de que nunca tinha pego um bebê no colo, muito menos, um recém-nascido. “Mas é seu filho!”. Ok, ela venceu. Claro que venceria. Como eu iria ganhar depois de um argumento desses? Segurei Danilo no colo, falei alguma baboseira de pai no seu ouvido e ele parou de chorar. Ali sim, veio a emoção, o suor nas mãos, a tremedeira… um orgulho absurdo de ter feito algo na vida que realmente valeu a pena.

Levei o Danilo para perto da Marcia, já chorando sem muito compr0misso, que recebeu um carinho com a mão. A mão dele. Danilo ganhou os primeiros beijinhos, teve o queixo avaliado com nota 10 pelo pai, e entendi que não chorei porque não era hora para choro.

danilo

Claro que estou ansioso

26 de novembro de 2013

Claro que vim falar da ansiedade pela chegada do Danilo. Claro que ando fumando mais do que o normal – e não, não acho isso nada legal. Claro que farei de tudo para diminuir, se não eliminar, o cigarro da minha vida. Claro que o quarto dele já está pronto. Claro que tem bagunça dele a ser arrumada. Claro que dá tempo. Claro que tá em cima da hora. Claro que vamos fazer de tudo para que sua chegada seja digna da ansiedade. Claro que isso não pode significar correria. Claro que precisamos acelerar o passo. Claro que as coisas vão mudar. Claro que mudaram.

Claro que a Marcia está mais ansiosa do que eu. Claro que não. Claro que sim, é lógico. Claro que isso não é tão claro assim. Claro que estamos felizes! Claro que me preocupo se vai chover. Claro que nos preocupamos com o calor. Claro que a Ramona vai ter que aprender a não pular em todos. Claro que, se pular no Danilo, que esteja no colo. Claro que se não estiver, Ramona vai levar pito. Claro que ela já sabe. Claro que ela já ouve o coração dele desde 0s primeiros meses, ao deitar na barriga da Marcia. Claro que serão irmãos. Claro que não são irmãos. Claro que posso pensar assim. Claro que amamos ambos. Claro que amamos o Danilo de forma totalmente diferente. Claro que isso é claro.

Claro que, para mim, 5 dias de folga serão pouco. Claro que quero 5 semanas, 5 meses. Claro que não dá. Claro que não agora. Claro que as horas com eles – sim, eles – serão só deles. Claro que o tempo agora é bipartido entre “com eles” e “sem eles”. Claro que vou chegar mais cedo. Claro que vou tentar, sempre. Claro que nem sempre vou conseguir. Claro que quero dar boa noite ao Danilo. Claro que, infelizmente, nem sempre vou conseguir. Claro que “bom dia”, “boa madrugada” e “boa tarde” serão mais comuns.

Claro que todos vão amar o Danilo. Claro que os avós são os mais babões. Claro, depois dos pais. Claro, antes dos padrinhos. Claro que ele vai acordar de madrugada, aos berros. Claro que estaremos lá. Claro, todos nós. Claro que vamos levar sustos, alguns maiores que os outros. Claro que isso é normal. Claro que não deveria ser normal achar isso normal. Claro que está tudo sob controle. Claro que sim. Claro que não. Claro que vou assistir ao parto. Claro que posso mudar de ideia. Claro que é comum os pais fazerem isso. Claro que alguns sentem certa angústia. Claro que pode.

Claro que são os 6 dias mais longos dos últimos 6 segundos.

Recado para Danilo

21 de outubro de 2013

Lua nova, lua cheia, sei lá. Ontem, por uns 10 minutos, fiquei fitando a lua acima do meu quintal. Fumava um cigarro, dava alguns goles em um copo de refrigerante e pensava: “rapaz, que bonito isso. O Danilo vai pirar nessas coisas”. Assim mesmo, do nada, sem qualquer propósito. Mal sei se o moleque vai gostar desses assuntos ou vai preferir um PS5 ao invés de uma luneta, mas esse tipo de pensamento bate em minha cabeça cada vez com mais frequência – do que será que ele vai gostar?

Voltei para dentro de casa. No corredor que leva à sala, via a Ramona (já devidamente recuperada da cirurgia de castração) e a protuberante barriga da Marcia. E ela ri toda vez que ele se mexe lá dentro da sua lua. Posso dizer que São Jorge ficaria pequeno perto do Danilo. O que sabemos é que ele gosta de chocolate. Tem chocolate, ele fica maluco lá dentro. Gira, roda, chuta, dá cotoveladas. Isso é prazer, não? Quase posso afirmar que ele dança o pogo. Sinal que ele vai gosta de punk rock e hardcore como o pai? Vai saber. Eu mesmo não via muita graça na lua, até ontem.

Me sinto mal por não ter costume de ficar alisando a barriga da Marcia, tentando entender o que está acontecendo ali dentro – talvez porque isso possa me deixar ansioso demais, mais do que já estou. Também ainda não tive muitas oportunidades de tentar conversar com o Danilo. Meu dia a dia é tedioso, não gostaria de enchê-lo com papo de mesa de bar. Não ainda. Por sinal, é bom ele não saber o que isso significa. Pelo menos até os 18 anos. Ou 15, como eu. Não, 18. Que seja 18.

Semana que vem o veremos mais uma vez, pelo ultrassom, antes do fatídico dia do parto, que ainda não sabemos ao certo quando será. Nem como. Só onde e de quem. Quem sabe ele não manda um tchau? Ou mostra o dedo? Ou pede mais chocolate? Ou me cobra pra bater um papo? Dezembro está tão perto. 

Danilo, segura a onda aí. Ainda não sou muito bom em te dar atenção full-time, mas tenho uns papos sensacionais pra trocar ideia com você. Logo mais sentamos e conversamos, ok? Até lá, continue nadando na gelatina, crescendo bem e forte – segundo sua mãe diz, você é forte pra caramba. Te esperamos! 

ps: já te comprei aquela roupa dos Ramones.

Ramona e a cirurgia

16 de outubro de 2013

Bem, como a Ramona foi encontrada na beira de uma rodovia, por uma garota bacana que a acolheu, deu banho, levou no veterinário, vacinou e colocou para doação, a pequena não passou pela castração. Hoje, com 6 meses de vida, vai entrar no bisturi. A Marcia irá levar a destruidora de casinhas de madeira, almofadas e corações na OSEC, e a castração é paga pela Prefeitura de São Paulo. Não foi só pela gratuidade do procedimento que escolhemos o local. O fato de ser reconhecida como uma das melhores entidades no trato e ensino veterinário pesou bastante. Mas claro que R$ 800 a mais no orçamento também ajudaram.

Mesmo assim, bate uma certa aflição. “Mas jejum de 8 a 10 horas?”, “Anestesia geral?”, “Como vou colocar a coleira em um animal fora de controle?”, etc. Me sinto um pai ausente por não poder ir à cirurgia. Sim, pai. Esse papo que as pessoas exageram no trato e afeto para com os animais domésticos em detrimento a menores abandonados e tudo mais é algo inventado por quem nunca teve um gato, cachorro, papagaio ou bicho que o valha. Dou broncas, tento ensinar coisas, alimento, levo pra passear, brinco, dou e recebo carinho. Coisa de… louco? Não, coisa de pai. Normal. “Mas você come animais mortos!”. Sim. Como e me lambuzo todo. Amo uns, tenho certo desprezo por alguns e enorme apetite por outros. É a vida. A minha, claro.

Pelo que sei, a recuperação dura de 7 a 10 dias. Nesse período, ela não pode correr, saltar do sofá, se lamber próximo ao local da incisão, entre outras. Claro, tudo o que é absolutamente habitual para ela. Hoje cedo, antes de sair de casa, Ramona estava ligada nos 220 volts. A nova diarista chegou para conhecer a casa e, como é natural a todos que vão lá, conheceu, primeiro, a Ramona. Lembro que lemos artigos e compramos livros sobre adestramento, sobre como evitar que o cachorro pule e queira insistentemente brincar com toda e qualquer pessoa que entra na casa. Em vão, é lógico. Mas tentamos. Durou 2 semanas, aproximadamente. 

Imagino que, com a chegada do Danilo, dentro de uns 50 dias, Ramona perca o posto de “rainha” do lar. Provavelmente vai sentir-se deixada de lado, vendo, sentindo e ressentindo o fato de um pequeno novo ser ter se apoderado de nosso colo e atenção integral. Mas Ramona é esperta. Ela vai encontrar um jeito de disputar e recuperar, pata à pata, seu posto de queridinha. Ela já tem o costume de deitar a cabeça sobre a barriga da Marcia e ficar lá, meio que dormindo, enquanto escuta dois corações bater. Danilo não vai nem saber, mas será irmão mais novo, logo se tornando educador e, depois, dono de uma cachorrinha. 

Espero a Ramona grogue, sonolenta, com alguns vômitos e dificuldades de urinar e defecar nos primeiros momentos. Com menos disposição para algumas coisas, e até mesmo, menos fome. Mas ela ela voltar “Ramona”, para mim, já está tudo bem.

E a Marcia lembrou bem, ontem, escolhemos o nome mais apropriado para a cachorrinha preta, de peito, patas e ponta do rabo brancas: “Sweet Sweet, little Ramona… she always wants to come over”.

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E o Danilo? Tudo bem?

24 de setembro de 2013

Olha, ele ainda não responde. Nem costuma atender pedidos como “chuta pro papai sentir” e coisas do gênero. Mas segundo fontes confiáveis, ele segue bem seu desenvolvimento, enquanto nada na gelatina, bebe e respira líquido amniótico e desenvolve seus pulmões, cérebro, ossos e tudo mais. 

Da última vez que o vi, por uma imagem que mais parecia a chegada do Katrina vista de um satélite, o moleque estava bem grande. Claro que isso varia. No começo, logo que soubemos de sua existência, “bem grande” eram 3 milímetros. Para mim, já era absurdamente impressionante. “Mas como ‘algo’ desse tamanho já tem coração?”. Hoje, já me acostumo com a ideia que ele irá nascer menor que a Ramona (que está enorme, rompendo com minhas esperanças de ter uma cachorra de porte médio em casa), mas maior do que uma régua escolar.

O Danilo está bem, obrigado. Segundo a mãe, sua canção é “Love of my Life”, do Queen. Claro que já passou por minha cabeça ter de comprar um collant branco para ele, mas assim que sair da barriga da Marcia, passará por baterias intensivas de Ramones, Beatles, Beach Boys e afins. Parece que ele também gosta de chocolate. Ou é uma desculpa de sua progenitora para comer aquilo que mais gosta – e, convenhamos, chocolate é quase uma unanimidade.

O quarto dele já foi pintado. E a tarefa mais simples do mundo – colorir um ambiente com dois tons de azul – se mostrou um verdadeiro parto a fórceps. Primeiro porque, como diz um amigo meu, para tarefas manuais, tenho duas mãos esquerdas. Segundo porque uma força-tarefa de 4 pessoas diferentes participaram do processo. Forças diferentes, alcances diferentes, táticas e práticas particulares. Imaginei que seu quarto se transformaria em um enorme Monet, mas acabou dando certo. Faltam os móveis, que já estão no checklist de compras pré-nascimento e alguns outros detalhes, como INSTALAR uma luminária em forma de Tweeter que compramos. Por quê? Sei lá, achamos bonito. A “decoração” do resto será um misto de amarelos, brancos e… coisas do Pequeno Príncipe (sabe como é, combina com as cores e tudo mais).

A Marcia não tem certeza absoluta do que vai querer na hora do nascimento. Natural, cesária, “sai aí, filho!”, coisas assim. Mas a decisão será tomada em conjunto da médica dela, que me ganhou ao dizer que, mesmo eu tendo varicocele (vocês já sabem disso, não?): “Isso é como um jogo de rugby. Uma hora, um daqueles que estavam lá no fundo se destaca, passa pela defesa e marca o ponto”. Confio nela.

Em dezembro ele chega, virando nossas vidas de cabeça para baixo e tornando tudo mais mais legal, longo, sonolento, bonito e barulhento.

Vamos acompanhar.


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